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8 de junho de 2020

COVID-19 - A Situação em Portugal

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❎ COVID19 - A Situação em Portugal
▪︎ Fonte, Diário Epidemiológico da DGS.
▪︎ 08 Junho - Segunda

▪︎ 97° Dia após início da Pandemia.

▪︎ 89° Dia de Confinamento pessoal. 8 dias já em Experiência de Desconfinamento.

▪︎ Iniciamos a 1 de Junho a fase de Desconfinamento.

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● Desconfinar não é Descontrair ● 

■ RESUMO

Não fora os actuais surtos de Lisboa e Vale do Tejo e os nossos Indices, encaminhar-se-iam para a neutralidade.
  • O número de internamentos a baixar consideravelmente.
  • A anterior situação leva a crer, que os Serviços de Saúde já têm capacidade de resposta aos Doentes não Covid.
  • A Letalidade a diminuir.
  • Já passamos os 936.000 testes. Na última semana. 13.000 testes/dia.
  • Bem menos doentes a aguardar os resultados laboratoriais. Hoje 1.063.
  • Mais doentes em tratamento  ambulatório.
  • Não há demonstração que o Desconfinamento seja o criador dos novos contaminados.
  • Novos  doentes em crescimento, todavia bem melhor que há algumas semanas atrás.
  • Os mais idosos, > 70 anos são os doentes mais vitimizados pela Pandemia.
  • Portugal bem qualificado no ranking internacional.



■ BREVE INFORMAÇÃO DO QUE SE PASSA NO MUNDO
  • Fonte Prof. João Freitas. Dados a 6/6/20.


□ Novos Doentes

Portugal, ocupa o 30° lugar da tabela de doentes infectados, com 3.368 por milhão de habitantes (Mh) e o 25° no numero de óbitos. Já estivemos no lugar 16º, quer em infetados, quer em óbitos.
  • Temos assim 29 Países em pior posição que Portugal.
  • Brasil, 3.069 por Mh. Melhor, por enquanto, que Portugal. Olhando para as notícias não pareceria!!!

  • LUXEMBURGO, 6.454 (em  ??,? milhões de habitantes)
  • ESPANHA, __ 6.168 (em  47,7 milhões de habitantes)
  • USA, ______ 5.974 (em 331,0 milhões de habitantes)
  • ITALIA, ___ 3.886 (em  60,4 milhões de habitantes)
  • PORTUGAL, _ 3.368 (em  10,2 milhões de habitantes)
  • BRASIL, ___ 3.069 (em 212,0 milhões de habitantes)


□ Mortes por Milhão de Habitantes
  • BÉLGICA, ______ 827
  • REINO UNIDO, __ 596
  • ESPANHA, ______ 580
  • ITÁLIA, _______ 560
  • SUÉCIA, _______ 461
  • FRANÇA, _______ 447
  • HOLANDA, ______ 351
  • ESTADOS UNIDOS, 338
  • BRASIL, _______ 166
  • PORTUGAL, _____ 145
  • ALEMANHA, _____ 105
  • Calculando por Milhão de Habitantes é possível comparar com rigor estatístico, países com dimensões populacionais muito diferentes.



■ PORTUGAL - DOENTES INFECTADOS 

□ Antepenúltima semana (semana de 18 a 24 Maio de 2020):
  • Soma Novos Casos: +1.813


□ Penúltima Semana (semana de 25 a 31 Maio de 2020):
  • 25 Mai N° Casos  30.778 + 0,5%
  • 26 Mai N° Casos  31.007 + 0,7%
  • 27 Mai N° Casos  31.292 + 0 9%
  • 28 Mai N° Casos  31.596 + 1,0%
  • 29 Mai N° Casos  31.946 + 1,1%
  • 30 Mai N° Casos  32.203 + 0,8%
  • 31 Mai N° Casos  32.500 + 0,9%

  • Soma Novos Casos: +1.887


□ Última Semana (semana de 01 a 07 Junho de 2020):
  • 01 Jun N° Casos  32.700 + 0,6%
  • 02 Jun N° Casos  32.895 + 0,6%
  • 03 Jun N° Casos  33.261 + 1,1%
  • 04 Jun N° Casos  33.592 + 1,0%
  • 05 Jun N° Casos  33.969 + 1,0%
  • 06 Jun N° Casos  34.351 + 1,1%
  • 07 Jun N° Casos  34.693 + 1,0%

  • Soma Novos Casos: +2.153


□ Evolução 3 Últimas Semanas:
  • Antepenúltima Semana: 1.813 ⬆️
  • Penúltima Semana: ___ 1.887 ⬆️
  • Última Semana: ______ 2.153 ⬆️

  • Soma Novos Casos nas 3 Últimas Semanas: +5.853


□ Destes 5.853 novos doentes cerca de 80% são da grande Região de Lisboa e Vale do Tejo (4 Milhões de Habitantes). É aqui que agora está o cerne do problema.

□ Evolução Hoje:
  • 08 Jun N° Casos 34.885 + 0,6%

  • Não se deixem "enganar" com o Ííndice percentual do Nº Casos parecer baixos, como o n° do acumulado de novos casos é muito elevado, (> 34.000), os novos infetados, apesar do aumento diário expressivo, na sua divisão pelo acumulado do dia anterior, resultam num índice de baixo valor, que não pode ser analizado isoladamente.

□ Entre a penúltima e a última semana, verificou-se um crescimento de + 1.877 doentes.
  • Em média + 238 doentes/dia.
  • A Região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) é agora a  Região que mais contribui (80%) para este maior crescimento.
  • Lisboa está desde há três semanas, cercada de novos contágios e o cerco aproxima-se cada vez mais da grande cidade.
  • Estes Novos Doentes têm origem, predominante, nos trabalhadores temporários da construção civil e das plataformas logísticas. 
  • Os Concelhos com maior contribuição de novos doentes são: Loures, Odivelas, Amadora, Sintra e Lisboa. A Azambuja já não está a contabilizar para o atual surto da Pandemia.



■ CONSIDERAÇÕES - DGS/MS
  1. Globalmente considero que a DGS e o Ministério da Saúde. têm feito um bom trabalho, que elogio.
  2. Todavia, em três meses de Pandemia, mostram muita dificuldade em articular uma estratégia de acção, de antecipação, de percepção dos acontecimentos. Passam, grande parte do seu tempo, a reagir e não a agir.
  3. Desconheço as razões deste processo de menor eficácia. Falta de recursos, falta de métodos analíticos das bases de dados, falta de software especializado, falta de massa cinzenta, má preparação dos recursos, organização mal estruturada que reage, mas não age preventivamente, falta do contributo dos Cientistas e das Universidades?
  4. O actual surto da Região LVT era esperável.
  5. O Ministério da Administração Interna, da Segurança Social têm, ou deveriam ter, através das secretas e outros meios de informação, o rastreamento dos movimentos dos trabalhadores temporários da construção civil, das cadeias logísticas da Cintura de Lisboa onde trabalham, dos bairros com más condições habitacionais, dos alojamentos em estilo caserna da maioria destes trabalhadores indiferenciados, etc..
  6. Recordemos os problemas anteriores com o alojamento de refugiados políticos nos Hostels, em Lisboa, que surpreenderam as autoridades!
  7. As condições económicas, sociais, habitacionais e a baixa literacia, ajudam a explicar estes surtos.
  8. Observem a diferença destes acontecimentos e comparem com o que acontece na Auto Europa, com  mais de 4000 mil colaboradores, mais os milhares das Empresas subsidiárias que ladeiam esta estrutura na região de Setúbal.
  9. Dá que pensar! A diferença é abissal. Chama-se gestão eficaz, trabalhadores especializados não temporários, mão de obra com salários competitivos e foco, repito foco, no controle e na prevenção do seus ativos essenciais, os Recursos Humanos.


● Estamos todos na mesma tempestade, mas não estamos todos no mesmo barco ●

  • Os epidemiologista acreditam, e cada vez mais bem sustentado, que na terceira semana de Junho, teremos um crescimento de novos casos, fruto dos contágios actuais.
  • 339.624 casos suspeitos, desde 01-Jan-20. Destes doentes, 10,2% (34.885) deram testes positivos.
  • 28.795 doentes em vigilância domiciliária, acompanhados, creio, pelos Especialistas de Medicina Familiar e Enfermeiros dos respetivos Centros de Saúde e  USF. 
  • Este N° está em crescimento, por responsabilidade directa da Região de LVT.
  • 1.603 doentes aguardam os resultados laboratoriais, número também estabilizado e bem menor que no passado recente.
  • Realizados  mais de 936.000 testes, até 03-Jun-2020.



■ NOVOS CASOS - INDICADORES DIÁRIOS

▪︎ MAIO:

□ Antepenúltima Semana (semana de 18 a 24 Maio de 2020):
  • Total da Semana: +1.813 Novos Doentes  ⬆️


□ Penúltima Semana (semana de 25 a 31 Maio de 2020):
  • Dia 25 +165 ➡️ (Seg)
  • Dia 26 +219 ⬆️
  • Dia 27 +285 ⬆️
  • Dia 28 +304 ⬆️
  • Dia 29 +350 ⬆️⬆️
  • Dia 30 +257 ⬇️
  • Dia 31 +297 ⬆️ (Dom)

  • ▪︎Total da Semana: +1.877 doentes ⬆️


▪︎ JUNHO

□ Última Semana (semana de 01 a 07 Junho de 2020):
  • Dia 01 +290 ➡️ (Seg)
  • Dia 02 +195 ⬇️ 
  • Dia 03 +366 ⬆️⬆️
  • Dia 04 +331 ▶️
  • Dia 05 +337 ▶️
  • Dia 06 +382 🔼
  • Dia 07 +342 🔽 (Dom)

  • Total da Semana: + 2.540 doentes ⬆️⬆️


□ Evolução Média/Dia, de Casos Activos das últimas 9 semanas:
  • ↘️763 ↘️746 ⬇️516 ➡️520 ⬇️299 ⬇️204 ↗️227 ⬆️268 ⬆️308

  • A última semana analisada (308 casos, média/dia) corresponde ao período de 01 a 07 de Junho, dom/dom.
  • Crescimento muito significativo desta última semana, todavia ainda longe de resultados médios anteriores, com duas semanas de mais de 700 casos, seguidas de duas semanas com médias de 500 novos infetados/dia.
  • Este Índice mostra que não estamos bem, mas já estivemos pior.
  • Este é o indicador que melhor analisa a verdade do estado da Pandemia e que influência todos os restantes índices 
  • Cerca de 80% destes novos casos têm origem em LVT e está diretamente relacionado com surtos localizados na periferia de Lisboa e não com as restantes Regiões.
  • Não existe evidência que estes últimos acontecimentos tenham relação com o Processo do Desconfinamento, uma vez que em todas as outras regiões de Portugal, Norte, Centro, Alentejo, Algarve e Ilhas, o número de Novos Doentes têm sido muito baixo.



■ DOENTES INTERNADOS - EXPESSIVAMENTE A DIMINUIR

□ Apenas levantar uma questão a que não sei responder e mais dirigida aos meus amigos médicos:
  1. Observa-se que o número de Doentes Internados e em UCI,  tem baixado sistematicamente, sendo que ontem eram “apenas” 421 em tratamento hospitalar.
  2. Qual a razão técnica na lentidão dos Serviços de Saúde em responder aos restantes doentes não Covid do país?
  3. Será que o grande número de doentes, hoje 28.791,  tratados em domicílio ocupam os nossos médicos especialistas?
  • Esta é uma questão que eu gostava que os jornalistas colocassem à Sra. Ministra, nas Conferências da DGS/MS.
  • O meu amigo Sebastião L. pode ajudar-nos a fazer chegar este recado aos seus colegas Jornalistas?

  • Os últimos dados analizados reforçam a probabilidade, segundo os Epidimiologistas, de um aumento, em LVT, na 3a semana de julho. A DGS, nesta expectativa  está a reforçar os hospitais desta Região.



■ ÍNDICE de LETALIDADE
  • 1.485 óbitos. Índice em 4,3% de 34.885 doentes contagiados.
  • Apesar do crescimento dos doentes contagiados, os novos doentes são de grupos etários mais jovens. Esta variação etária, vai fazer baixar o número de falecimentos, como já se observa.



■ ÓBITOS por DIA

□ Antepenúltima Semana (semana de 18 a 24 Maio de 2020): média/dia = 14,1 óbitos

□ Penúltima Semana (semana de 25 a 31 Maio de 2020): média/dia = 13,4 óbitos

□ Última Semana (semana de 01 a 07 Junho de 2020):
  • 31 Mai, 14 óbitos (Dom)
  • 01 Jun, 14 óbitos
  • 02 Jun, 11 óbitos
  • 03 Jun, 11 óbitos
  • 04 Jun, 08 óbitos
  • O5 Jun, 10 óbitos
  • 06 Jun, 09 óbitos (Sáb)

  • Média/Dia = 11 óbitos. A mais baixa de sempre!


□ Semana em Curso:

  • 07 Jun, 05 óbitos (Dom) O menor número de sempre!
  • 08 Jun, 06 óbitos (Seg)


□ Por Grupo Etário:
  • O grupo etário dos > 80 anos, com 1.004 óbitos, 67,6% do total de 1.485 óbitos.
  • O grupo etário dos 70/80 anos, com 283 óbitos, 19,5% do total de 1.485 óbitos.
  • O grupo etário dos < 70 anos, com 198 óbitos, 13,3% do total de 1.485 óbitos.
  • Logo o grupo etário dos > 70 anos, com 87,1% do total óbitos.


□ Letalidade Por Milhão de Habitantes, por Região do Continente (06-Junho-20):
  • 107,9 em LVT
  • 218,5 no NORTE
  • 140,2 no CENTRO

  • Apesar dos últimos  surtos da Região de LVT, o número de óbitos desta Região  é ainda,  bem mais reduzido  que a Norte e no Centro do País.



■ CASOS RECUPERADOS
  • Até hoje, 21.156 doentes recuperados.



■ RESEARCH & DEVELOPMENT
  1. Para hoje não me tornar muito extenso, adiarei para a próxima semana a abordagem a uma empresa especializada na computação de base de dados, a BLUEDOT, Global Early Warning for infectious Diseases.
  2. Presta serviços aos países, às cidades, à aviação, aos serviços de saúde, etc. antecipando os acontecimentos provocados pela pandemia, permitindo às autoridades agirem em vez de reagirem.



✅ Regressarei aqui, como já sabem, semanalmente ou quando alguma anomalia dos indicadores o justificarem.


Meus Cumprimentos e bons Abraços

Rui S.




Fonte
  • Old Boys Network. Recebido 08 de Junho de 2010, às 14:34 UTC+1.







Etiqueta principal: Covid-19 em Portugal.
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6 de junho de 2019

Urgências: Sobre a realidade dos factos

“Medicina de guerra”.
Visão. 29 de Janeiro de 2015.


Atendendo à nossa experiência de ontem – de minha mulher como paciente, minha como acompanhante – faz sentido:
  1. Transcrever o artigo “No mundo ideal não é preciso olhar para o mundo empírico”, publicado por Paulo Tunhas no Observador (2019-06-06T08:05:01+01:00).
  2. Referir o artigo “Costa, Louçã e o perigoso jogo de espelhos do SNS”, publicado por José Manuel Fernandes no dito Observador (2019-06-05T08:23:14+05:00).

Acho que devo acrescentar quatro coisas:
  1. Sou engenheiro, filho de dois médicos, irmão de um médico e de uma enfermeira, cunhado, ou concunhado, de médicos e enfermeiras, pai e tio de enfermeiros, e todos eles trabalharam, ou trabalham, para o Estado Português.
  2. Não concordo com tudo o que Paulo Tunhas e José Manuel Fernandes afirmam, ou propõem, mas concordo com a análise que fazem, particularmente com a análise filosófica de Paulo Tunhas.
  3. É de salientar o facto de, apesar de tudo, os serviços funcionarem com eficácia embora, por vezes, uma eficácia bastante impessoal.
  4. É de salientar a calma, a paciência, o verdadeiro estoicismo, de pacientes e acompanhantes.



No mundo ideal 
não é preciso olhar para o mundo empírico

Por Paulo Tunhas no Observador a 06 de Junho de 2019 ás 08 hora e 05 minutos

Costa arrisca tornar-se num dos mais nocivos primeiros-ministros da história recente. A não ser, é claro, que a vida na irrealidade seja dotada de misteriosas virtudes que escapam ao comum dos mortais.

Há uma maneira certa e segura para não resolver qualquer espécie de problema que se nos coloque: sermos incapazes de fixar a atenção nos casos particulares e concretos e logo voar para o reino do universal e abstracto, lidando com o particular e concreto apenas na medida em que ele encaixa no geral e abstracto tal como o entendemos e descurando tudo o resto.

Já dei há uns tempos este exemplo, que me diz pessoalmente respeito porque cheguei à idade em que as maleitas mais ou menos insidiosas nos atacam, capazes de nos levar desta para melhor. O Serviço Nacional de Saúde está caótico, é mal financiado, os tratamentos atrasam-se, médicos, enfermeiros e doentes (os célebres “utentes”) protestam, directores de serviço demitem-se um pouco por todo o lado. O que se faz? Procura o Estado resolver os problemas concretos? Não, é claro que não, era o que faltava. Passa-se de imediato para o universal, para o geral e abstracto, para o reino dos princípios eternos: discute-se uma nova Lei de Base da Saúde. Como  a logomaquia, a luta das palavras, tende a perpetuar-se indefinidamente, uma espessa corrente de fumo é lançada sobre o sofrimento e a angústia dos cidadãos inermes e poupa-se a chatice de resolver os problemas de que padece a ralé.

O salto para os princípios universais sem atenção prévia aos casos particulares (ou com voluntário e consciente silenciamento deles) é o último refúgio dos imbecis e o ambiente ideal para os fanáticos. Libertos das desconfortáveis amarras do empírico, os indivíduos entram no belo mundo das Ideias. Aí, a facilidade de acreditar não encontra qualquer resistência do real e o pensamento a crédito floresce ainda mais do que no curso comum dos negócios humanos, onde, de resto, já é o pão nosso de cada dia. As grandes causas mobilizam inteiramente o espírito e a logomaquia adquire imaginariamente as proporções cósmicas de uma gigantomaquia, traduzida numa luta sem quartel entre o Bem e o Mal, em que os participantes, para retomar uma imagem de Locke, não conseguem ver nada para lá do fumo das suas próprias chaminés.

Entramos no reino do tudo ou nada. Para quem tudo vê como um eterno combate de princípios, o compromisso encontra-se, por definição, excluído. O que acarreta, Raymond Aron lembrou-o há muito em O ópio dos intelectuais, que conte apenas o que se vê como uma libertação ideal e que qualquer libertação real seja liminarmente recusada como ilusória. O problema reside no simples facto de a libertação ideal —absoluta, total, sem resto, revolucionária— ser comprovadamente impossível, e a libertação real —parcial e reformista— ser a única possível. E reside igualmente no prestígio de que goza, mesmo nas mais pacatas e insuspeitas cabeças, a ideia de uma transformação revolucionária da realidade. Não creio que se possa deduzir sem mais o totalitarismo ao marxismo —ou, já agora, a Rousseau, ou a qualquer filosofia que mereça esse nome da história ou da sociedade—, mas a verdade é que Marx, ao procurar fornecer uma ossatura teórica e “científica” ao mito da Revolução, contribuiu decisivamente para tudo se ver a partir da radical oposição do tudo e do nada e para o militante desprezo pelos vários reformismos.

Mas o desprezo pelo particular e pelo concreto não precisa de se mostrar numa sua encarnação tão radical. Pode perfeitamente limitar-se a aspectos mais banais, que tendem no entanto a mergulhar a sociedade num sentimento quase esquizofrénico de irrealidade. Quando, por exemplo, num país em que a saúde e os transportes públicos se degradam muito visivelmente dia após dia e a mais elementar exigência burocrática se transforma num indescritível tormento para os cidadãos, se celebram com pompa e circunstância modernidades espúrias como a Web Summit e coisas afins, é o tal desprezo que está em acção. António Costa, tal como José Sócrates, não acredita no mito da Revolução e da libertação ideal, por muito que aqui e ali a conveniência o possa obrigar a um ou outro piscar de olhos nessa direcção, mas, tal como José Sócrates no seu tempo, que foi também o tempo dele, não nos esqueçamos, é dotado de uma extraordinária facilidade em voar do plano da realidade para o plano do ideal, onde não é preciso, nem convém, olhar para o baixo mundo empírico. No mundo ideal, entre outras coisas, a austeridade acabou. Que importa que no mundo empírico os seus efeitos se sintam cada vez mais dolorosamente na vida das pessoas?

Há sem dúvida quem encontre virtudes várias nesta esquizofrenia organizada. É no entanto permissível ver nela um sinal maior da corrupção da vida política na nossa sociedade. Uma corrupção que velozmente degrada o que ainda restava de confiança dos cidadãos na sua classe política. Como se o mundo dos políticos não fosse o mesmo que o nosso. António Costa arrisca-se, qualquer que seja a sua popularidade presente, a tornar-se num dos mais nocivos primeiros-ministros da nossa história recente. A não ser, é claro, que a vida na irrealidade seja dotada de misteriosas virtudes que escapam ao comum dos mortais. Dito de outra maneira: a não ser que o desprezo pelo concreto seja a garantia da nossa felicidade colectiva.






Fontes
  1. “Medicina de guerra”. Visão. Publicado a 29 de Janeiro de 2015 às 10:23. Recuperado a 06 de Junho de 2019 às 10:23.
  2. “No mundo ideal não é preciso olhar para o mundo empírico”. Paulo Tunhas. Observador. Publicado a 06 de Junho de 2019 ás 08:05. Recuperado a 06 de Junho de 2019 ás 15:14.
  3. “Costa, Louçã e o perigoso jogo de espelhos do SNS”. José Manuel Fernandes. Observador. Publicado a 05 de Junho de 2019 ás 23:14. Recuperado a 06 de Junho de 2019 ás 15:19.




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