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11 de fevereiro de 2021

Imbróglios angolanos: Quem é que é angolano afinal?



Foi nesta igreja que, no hoje pré-histórico ano de 1947, foi baptizada minha mulher, descendente de Francisco Sousa Ganho (Olhão, Algarve, Portugal1829 – Moçâmedes, Moçâmedes, Angola, 1895), um do fundadores de Porto Alexandre.

E porque fui eu lembra-me disso?

Por causa do Incidente no Cafunfo, das notáveis declarações que, a propósito do dito, Susete Antão expendeu no programa Política no Feminino, emitido pela Televisão Pública de Angola (TPA) no dia 6 de Fevereiro de 2021, e das ainda mais notáveis reacções às ditas opiniões.

Mas vamos aos factos primeiro, depois aos meus comentários.



Política no Feminino. Tema: Cafunfo

Suzete Antão é a branca à esquerda da apresentadora, que se volta para ela no minuto 1:29:56. 

As demais são mestiças, todas, incluindo a mais escura.

O programa foi para o ar no sábado, e na segunda-feira Graça Campos, também mestiço, publicou dois artigos no Correio Angolense, que transcreverei.



Trabalho inacabado

Graça Campos • Correio Angolense • Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2021 • Original


A nossa meio compatriota Susete Antão, a quem o MPLA incumbiu de classificar os angolanos por percentagens, não completou o frete. 

No raciocínio que defendeu sexta-feira no Política no Feminino, Susete Antão  deixou claro que o líder da UNITA, Adalberto da Costa Júnior,  não é 100% angolano porque também é titular de nacionalidade portuguesa – é público que o homem já renunciou à nacionalidade lusa.

Ela própria também meia angolana, já que metade da costela é portuguesa, Susete Antão não explicou em que percentagem os mestiços, descendentes directos de brancos portugueses e outros, são angolanos.

Para a completa clarificação do assunto, faz-se urgente que a nossa meia compatriota, que anda fugida de Portugal, explique em que percentagem auxiliares do Titular do Poder Executivo como Carolina Cerqueira (ministra de Estado para os Assuntos Sociais), Francisco Queirós (ministro da Justiça e dos Direitos Humanos), Marcy Lopes (ministro da Administração e Reforma do Estado), Luísa Grilo (ministra da Educação), Teresa Dias (ministra da Administração Pública, Emprego e Segurança Social), Diamantino de Azevedo (ministro dos Recursos Minerais e Petróleos), Manuel Tavares (ministro das Obras Públicas e Ordenamento do Território) são angolanos e portugueses. O mesmo é extensivo para os oficiais generais das Forças Armadas Angolanas e da Polícia Nacional.

De acordo com os critérios da meia compatriota, os únicos casos que não se prestam a dúvidas serão os dos ministros da Energia e Águas e do Comércio e Indústria. João Baptista Borges e Victor Fernandes têm dupla nacionalidade: lusa e angolana. Portanto, são metade aqui e metade lá.

Como o Bureau Político bem diz no seu comunicado, “queremos” saber quem são os “cidadãos estrangeiros” que, “sem escrúpulos executam uma agenda política contrária aos interesses de Angola e dos angolanos”.

Para a plena divisão de águas, é preciso que Susete Antão e quem a industriou terminem o que (mal) começaram.

Os cidadãos precisam de ter certezas sobre os seus governantes. Precisam de saber em quê percentagem ministro tal é 100% angolano, ministro y é 53% português,  e ministro x é 25% zairense, etc. etc.

Quando demanda um serviço público, o cidadão tem de saber por quem será atendido. Se por um igual, um meio angolano, um maioritariamente português e por aí adiante. Para facilitar a tarefa, é melhor que a sem hora Susete Antão comece já a providenciar adesivos e pulseiras que classifiquem os angolanos por percentagem da sua originalidade.



《Meio angolanos》–  a última criação do MPLA

A nova categoria de cidadãos, uma “homenagem” a ADC, prova que o líder da UNITA está a ser uma incômoda pedra no sapato dos “camaradas”

Graça Campos • Correio Angolense • Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2021 • Original


Em 1975, quando “desembarcou” nas cidades, que muitos dos seus membros desconheciam por completo, o MPLA trouxe um discurso inovador. Em oposição aos seus dois inimigos, UNITA e FNLA, que eram movimentos de matriz tribalista e racista, o regionalismo e por aí adiante. Marido de uma branca portuguesa e pai de filhos mestiços, Agostinho Neto liderou a luta contra o que então eram consideradas taras do colonialismo. Em várias oportunidades, Neto citou o seu próprio caso pessoal para justificar a sua rejeição ao racismo e outros comportamentos indecentes.

Quem já cá andava naqueles tempos, há de lembrar-se que todos os comícios do MPLA terminavam, invariavelmente, com um exaltado ABAIXO O IMPERIALISMO! E terminavam com ruidosos e inflamados ABAIXO O RACISMO, ABAIXO O TRIBALISMO e ABAIXO O REGIONALISMO!

Com José Eduardo, que desposou em primeiras núpcias a caucasiana Tatiana Kukanova, o MPLA manteve o discurso antirracista, antitribalista e antirregionalista. Com actos concretos, José Eduardo dos Santos mostrou que também era avesso à xenofobia, irmã gémea do racismo. Ele teve no Governo, nas Forças Armadas e no seu próprio gabinete descendentes de estrangeiros, nomeadamente são-tomenses e cabo-verdianos. Assunção dos Anjos, descendente de são-tomenses, foi director do seu gabinete; Aldemiro da Conceição, descendente de são-tomense, foi quase tudo na Presidência de JES (assessor de imprensa, chefe do Gabinete de Quadros, etc., etc.); Licínio Tavares, descendente de são-tomenses, ficou à testa do Ministério dos Transportes durante “séculos”; João Baptista de Matos, descendente de cabo-verdianos, foi o mais notável cabo de guerra de Angola e foi sob o seu comando que as FAA partiram a espinha dorsal da UNITA, quando lhe tomaram as praças principais, Bailundo e Andulo, nomeadamente; Francisco Furtado, descendente de cabo-verdianos, foi CEMG das FAA; António Furtado, descendente de cabo-verdianos, foi governador do Banco Nacional de Angola; Ângelo da Veiga, descendente de cabo-verdianos, foi ministro do Interior.

A falta de soluções para as carentes carências das populações tem vindo, a introduzir, lentamente, no léxico político angolano conceitos e expressões prenunciadores do desabamento de todo o edifício antirracista, antitribalista, antirregionalista e antixenófobo que o MPLA se esforçou, e muito, por construir ao longo dos anos.

O discurso pró-racista e pró-xenófobo foi inicialmente introduzido nas redes sociais por presumíveis militantes do MPLA e tinha um alvo concreto: o actual presidente da UNITA, Adalberto da Costa Júnior.

Mas aquilo que parecia ser apenas linguagem de roqueiros desesperados, de pessoas fanatizadas, foi ganhando “status” e na sexta-feira passada foi oficialmente absorvida pela direção do MPLA.

Ao mencionar, no seu comunicado, “líderes políticos sem escrúpulos, que afinal são cidadãos estrangeiros”, o MPLA subscreveu publicamente o discurso xenófobo.


Depois de, basicamente, haver fracassado, de modo clamoroso, em todos compromissos que assumiu com os angolanos, vemos, agora, rendido ao discurso soez e rasteiro da xenofobia. 

Depois de, basicamente, haver fracassado, de modo clamoroso, em todos compromissos que assumiu com os angolanos, vemos, agora, rendido ao discurso soez e rasteiro da xenofobia. 

Encorajado pelo comunicado do BP do MPLA daquela mesma sexta-feira, uma estreante do programa Política no Feminino, da Televisão Pública de Angola, permitiu-se criar uma nova categoria de angolanos: meio angolanos. E ilustrou o conceito com o líder da UNITA, que, na opinião dessa iluminada, não é 100% angolano. 

De acordo com a criadora do novo conceito, Adalberto da Costa Júnior não é 100% angolano porque também foi detentor de cidadania lusa. Sintomaticamente, a “inventora” do conceito de meio angolano é ela própria também uma meia angolana, pois, embora tenha nascido em Angola, viveu e cresceu em Portugal, de onde só fugiu por causa de um cabeludo  processo judicial que tem à perna.

Na sexta-feira, tivemos na TPA um exemplo concreto do roto que aponta o dedo ao esfarrapado. Uma cidadã de tez branca, descendente de portugueses, a negar a Adalberto Costa Jr. a condição de ser integralmente angolano!

A adesão do MPLA a esse discurso xenófobo significa que ele procura, ingloriamente, que todos os angolanos cerrem fileiras contra o líder da UNITA. O MPLA procura que todos os angolanos transfiram para Adalberto da Costa Jr. o mesmo ódio, a mesma raiva, o mesmo desprezo que tinham de e por  Jonas Savimbi.

Esse é um exercício inglório: Savimbi era odiado porque era o líder de uma guerra que não poupava ninguém; Savimbi foi odiado porque semeou a dor e o luto em muitas famílias angolanas; Jonas Savimbi foi execrado porque praticou ou mandou prática actos demoníacos. É de todo impossível transferir para Adalberto Costa Jr. as “virtudes” que fizeram de Savimbi um verdadeiro monstro.

Os jovens angolanos que hoje estão na faixa etária dos 20 e 30 anos – e que representam  cerca de metade de eleitores – não identificam Adalberto Costa Jr. com a guerra; nunca o viram fardado e com arma a tiracolo. 

A juventude hoje não vê em AC Jr. o “líder sem escrúpulos”, que “executa uma agenda política contrária  aos interesses Angola e dos angolanos”

Os jovens hoje vêm Adalberto da Costa Jr. alguém que tem um discurso contrário às tergiversações e lugares comuns do MPLA. Um discurso oco e sem consequências.

Nesta altura do campeonato um discurso vindo do MPLA que “exorta aos seus militantes, simpatizantes e amigos do Partido, aos angolanos de Cabinda ao Cunene, a defenderem a unidade e reconciliação nacional e a se manterem confiantes nas medidas que o Executivo angolano liderado pelo Camarada Presidente João Lourenço vem tomando em prol do desenvolvimento político, económico e social do país” comove quem?

Quem neste momento toma a peito a ladainha do MPLA de que  “Queremos uma Angola onde impere um verdadeiro Estado Democrático de Direito, onde prevaleça o primado da lei, onde se respeitem as instituições do Estado, onde se respeitem os símbolos nacionais e os mais nobres valores da cultura e da história do país”

Como diz a Lei de Murfy, com o MPLA “Nada está tão mau que não possa piorar”

A assunção do discurso xenófobo é a prova de que a casa desabou.

Como sempre reclamou para si a condição de “força dirigente da Nação”, o MPLA não pode levar a mal que os angolanos lhe sigam o exemplo e queiram identificar, entre os governantes, quem, afinal, “são cidadãos estrangeiros e por isso executam uma agenda política contrária aos interesses de Angola e dos angolanos”.

É lícito incluir entre os “estrangeiros sem escrúpulos”, por terem dupla nacionalidade, os ministros da Energia e Águas e do Comércio e Indústria? À luz dos novos conceitos, como devemos olhar para João Baptista Borges e Victor Fernandes? 

É preciso clarificar discurso. O MPLA, que, empurrado pelo desespero, agora subscreve discursos que antes abominava, que abra o jogo.

O “meio angolano” pode ou não ser governante neste país? Quem não é 100% angolano, fugida da justiça, pode ir à televisão pública dizer quem é mais ou menos angolano?

É preciso clarificar discurso. O MPLA, que, empurrado pelo desespero, subescreve, agora, discursos que antes abominava, que abra o jogo.

O “meio angolano” pode ou não ser governante neste país? Quem não é 100% angolano, fugida da justiça, pode ir à televisão pública dizer quem é mais ou menos angolano? 

E, por fim, porque razão o MPLA se tornou tão mau a fazer um comunicado e a fazer leituras sobre a situação do país? 

Em definitivo, o MPLA dos ladrões que afundaram este país, foi substituído por um MPLA medíocre do ponto de vista intelectual.

Qualquer tolice e disparate vai parar aos seus comunicados e qualquer arrivista e oportunista é cooptada para falar por si. 

Naquele secretariado do Bureau Político está reunida a “nata” da fraqueza intelectual. 

MPLA, quem te viu e quem te vê…



Imbróglios angolanos:
Quem é que é angolano afinal?



Em 1957, tinha eu dez anos e frequentava o primeiro ano do liceu, no Salvador Correia, em Luanda, tinha Mocidade Portuguesa aos sábados à tarde, na parada do liceu.

A parada do liceu era por trás do ginásio, do lado do Rádio Clube de Angola, do lado da Rua do Dr. Luiz Carriço, actualmente Rua Salvador Allende, e, como a Mocidade era na época, obrigatória, lá ia eu para a Mocidade marchar. 

Marchar, fazer ordem unida. 

Esquerda, volver, direita volver, marcar passo, em freente marche! 

Um, dois, esquerdo, direito. 

Um, dois, esquerdo, direito. 

E quem dava as ordens?

O Comandante de Falange.

E o Comandante de Falange era branco?

Não, era mestiço.

E como se chamava o Comandante de Falange?

Henrique Teles Carreira (1933-2000), mais conhecido por Iko Carreira.

Mas já me despistei, não era disto que eu queria falar!

Eu queria falar do imbróglio do Quem é que é angolano afinal?

Um preto do mato, que nem fala nem entende o portugês, é angolano?

E se não for do mato, for da cidade, mas não falar nem entender o português?

E se, sendo do mato ou da cidade, falar e entender o português?

E se for um mucancala, o povo a quem os pretos roubaram a terra?

E se for um mestiço?

E se for um cabeça-de-pungo?

E se for um macópio, ou um xicoronho?

O que é preocupante no discurso da branca de segunda Susete Antão, discurso que Graça Campos afirma ter sido encomendado pelo Bureau Político do MPLA-Lourenço-Bornito, é a Carcamanização de Angola, o Discurso Racista que caracterizou as Colonizações Holandesa, Britânica e Alemã, em África e não só.

E é preocupante porque, mostra-o a história, após a palavra vem a acção.







Etiqueta Principal: Racismo.

10 de dezembro de 2020

Black Friday

 

Cruzamento do Polo Norte
Luanda no Tempo do Colono



Black Friday, ou Conversas de Kotas


O Primeiro Kota recebeu o vídeo infra de outros Kotas e partilhou-o, sem comentários, com o Segundo Kota.

A partilha deu origem à conversa reproduzida abaixo do vídeo.




Segundo Kota
Então o Black Friday, agora, é contra os pretos? 
Se calhar há pretos q não gostam de o ser…! Como aquele jogador do Paris Sain Germain q, se fosse louro, tb achava q era racismo o arbitro dizer: “Aquele louro.”
Só pode ser complexo!
Há psiquiatras, minha gente!

Primeiro Kota
Há pretos que não gostam de o ser sim, que se detestam. 
E há também outros que foram maltratados e estão ressentidos.
Agora temos de ver que cultura e que pretos estão em causa.
No EUA há racismo descoberto contra pretos que não são pretos.
Em França há racismo encoberto contra pretos que são pretos.
Em Portugal e no Brasil preto rico, ou doutor, é branco. 
Em Angola depende, em Moçambique não sei.
Para os Franceses, os Ingleses, os Americanos, bem como para os pretos por eles educados, a ideia de que “preto rico, ou doutor, é branco” é inconcebível. Coisa de mentes pervertidas, diabólicas.

Segundo Kota
Não entrando na discussão das categorias dos pretos e falando de Angola, estás-te a referir a quê, qd dizes q a negritude depende… depende de quê?

Primeiro Kota
Depende da cultura.

Em Angola tens:
1.
Os Pretos Tribais, em pretéritos séculos chamados de Pretos Descalços, que não falavam o Português, só uma língua Banto
2.
Os Pretos Calçados, mais recentemente chamados de Assimilados, que falavam o Português e uma língua Banto.
3.
Os Mestiços – do Preto Velho ao Branco de Benguela – que falavam o Português e, raramente, uma língua Banto.
4.
Os Brancos de Segunda – de primeira geração, segunda geração, terceira geração, etc. – que falavam o Português e, raramente, uma língua Banto.
5.
Os Velhos Colonos – que não tinham nascido em Angola mas para lá tinham emigrado e, muitas vezes, cafrealizado – que falavam o Português e, raramente, uma língua Banto.

Os Mulatos e os Brancos de Segunda eram Filhos da Terra, por oposição aos Filhos do Reino, uma categoria que existiu, e existe, do Japão ao Maranhão.

Os Filhos da Terra educados sempre estiveram, e estão, no patamar em que os Filhos do Reino estavam, e estão.

Tens um exemplo recente em Francisca Van Dunem, actual Ministra da Justiça, e um exemplo antigo em Alexandre de Gusmão, Escrivão da Puridade de Dom João V.

As Colonizações Holandesa, Britânica, Francesa, Alemã, não tiveram nada de semelhante, nem sequer com os ‘Colonials’, o Britânicos Brancos nascidos no Ultramar (‘Overseas’).

Os Espanhóis misturam-se mas mantiveram sempre a primazia dos Nascidos nas Europas, par várias razões a menor das quais não terá sido os ‘Estatutos de Limpieza de Sangre’ que vigoraram em todo o Império Espanhol mas nunca no Reino de Portugal e no seu Império. 

Nem no tempo dos Filipes os ‘Estatutos de Limpieza de Sangre’ que vigoraram no Reino de Portugal e no seu Império!

A situação em Angola é uma situação que suponho única por duas razões:
1.
A Elite no Poder é constituída por Mestiços e Brancos de Segunda.
2.
A Guerra Colonial e as duas Guerras Civis extinguiram praticamente os Pretos Descalços, ou Pretos Tribais, actualmente já só há, ou quase só há, Pretos Calçados, Mestiços, Brancos de Segunda e Velhos Colonos.

E isso nota-se bem nos desprezo com que os angolanos se referem aos Zairenses e aos Sul-Africanos, que apelidam de Pretos, dessa forma tornando claro que não se consideram a si próprios como Pretos. 

Não se consideram a si próprios como Pretos Descalços, Pretos Burros, Pretos Selvagens.

Segundo Kota
Então não depende…
Bem me parecia!
😘


Quando partilhou o vídeo supra o Primeiro Kota partilhou também o vídeo infra, que o Segundo Kota comentou escrevendo:
Já o 2.° vídeo tem muita piada...!
Mas não havia uma rábula de um dos humoristas portugueses, daqueles clássicos, q é muito parecida?
Mas q está muito bem apanhada, está!
😘








Etiqueta principal: Angola.
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28 de maio de 2020

27 de Maio, Nunca Mais




27 de Maio, Nunca Mais

Ascensão de Neto ao poder as causas longínquas do fraccionismo. (…) Segundo fontes seguras, em meados do ano de 1962, dois antigos militantes do Partido Comunista português (PCP)[1], o angolano Agostinho Neto e o guineense Vasco Cabral, saem clandestinamente de Portugal com o apoio do partido, a bordo dum iate que os leva até à costa do Marrocos (Dalila Cabrita & Álvaro Mateus, Purga em Angola, ASA, página 28).

Redacção Folha 8 — 27 de Maio de 2020

Segundo uma outra fonte, a bordo do barco de recreio que os transportou, conduzido por Nogueira, um oficial da marinha portuguesa ao serviço do PCP, também tinham embarcado a esposa de Neto, Maria Eugénia, e os seus dois filhos. Quanto à chegada do barco a Marrocos, divergem as versões: Carlos Pacheco diz que foi em Junho, ou antes: (“(…) chega a Leopoldville (Agostinho Neto) e assume a presidência (honorífica) do MPLA em Junho de 1962” (C. Pacheco, “MPLA, um nascimento polémico”, nota 20, pág. 77). Mas nas suas “Memórias”, Iko Carreira assegura que o barco chegou a Marrocos a 21 de Julho de 1962.
De qualquer modo, a preocupação primeira do foragido patriota angolano ao pisar terras de África foi partir para Leopoldville, onde o MPLA tinha uma base importante.
Neto teria pois chegado à capital do Congo no final de Julho[2], e uma das primeiras pessoas com quem falou foi o então presidente do MPLA em exercício, Mário Pinto de Andrade (Agostinho Neto era presidente honorífico). Nessa conversa em tête-à-tête, este último teria feito sentir a Neto a necessidade de este assumir a presidência do movimento e tentar realizar a união de todos os movimentos de libertação de Angola (Iko Carreira, Memórias, pág.52, Nzila, 2005). Neto aceitou o repto, e data sem dúvida dessa altura, a ideia de convocar uma Conferência Nacional do MPLA, que, finalmente seria realizada em Dezembro desse ano.
Entretanto, as relações entre o presidente Mário de Andrade e o secretário geral Viriato da Cruz, não eram das melhores, embora não se possa dizer que eram más. Viriato criticava Mário por este ser um intelectual pouco activo e, sobretudo, por insistir em obter apoios de certas potências ocidentais. Mas até essa data nada de crise, o clima ainda era pacífico.
Porém, se juntarmos a estes pequenos atritos entre Viriato e Mário Pinto de Andrade a conivência deste último com o recém-chegado Dr. Neto, não era preciso ser bruxo para adivinhar o que se iria passar na prevista 1ª Conferência Nacional do MPLA, que acabou por ser realizada, como sobredito, em Dezembro de 1962: o Dr. Agostinho Neto foi eleito presidente do MPLA, e, como se tal decisão não bastasse para autenticar a derrota de Viriato da Cruz, o cargo de secretário-geral foi suprimido, quer dizer, subsequentemente este último foi evacuado “mine de rien”, como quem não quer a coisa, da direcção do movimento.
Estavam lançadas as bases de futuras roturas.

Viriato da Cruz e a primeira crise fraccionista

Viriato da Cruz, o estratega e ideólogo de sempre do MPLA, que já em 1960, em Tunes, tinha lutado contra ventos, correntes e marés para ver os seus pontos de vista adoptados pelos seus camaradas da cúpula do então MAC, em seguida FRAIN e, por fim, MPLA, sempre viu com evidente desconfiança a chegada do Dr. Neto a Leopoldville em meados de 1962, e, sobretudo, nutriu de imediato uma repulsa instintiva pela presença da sua esposa no campo da guerrilha, Maria Eugénia, uma cidadã lusa que apenas lhe inspirava dúvidas quanto ao apego pessoal pela causa dos pretos de Angola. Lógico, mas mesmo assim considerado como uma detestável manifestação de racismo por parte da delicadíssima senhora Neto.
Essa temática do racismo também serviu para separar os dois homens. Ciente de dificuldades acrescidas decorrentes dos ataques da FNLA a propósito da presença de brancos e mestiços no quadro dos seus órgãos directores, Viriato da Cruz propôs, no decorrer da Conferência Nacional do MPLA de Dezembro desse mesmo ano, um “recuo táctico” dos não negros dos órgãos de direcção, sacrificando-se a si próprio para dar o exemplo. Mas Agostinho Neto não concordou, fazendo valer o princípio de o MPLA não poder tolerar qualquer concessão ao que pudesse violar os seus princípios fundamentais, designadamente a prática de uma absoluta repulsa ao racismo.
Havia outros pólos de discórdia, por exemplo, as contradições entre universitários e não universitários, a inexistência de qualquer tipo de acção armada em território angolano, a desvalorizar o movimento em relação à FNLA, a tentativa de dar corpo a uma Frente Democrática de Libertação de Angola (FDLA), a incompatibilidade de carácter entre os dois homens, o antagonismo China e a União Soviética com Viriato de um lado e Neto outro do outro… enfim, tudo muito complicado.
Diga-se também, para melhor compreender o que aconteceu, que até à chegada de Agostinho Neto a Leopodville, melhor dizendo, até à sua chegada à presidência do MPLA, o relacionamento entre os membros da direcção do movimento nacionalista pautavam pela simplicidade: o Mário tratava por tu o Lara, o Menezes fazia o mesmo com Eduardo Macedo dos Santos e vice-versa. Mas Neto impôs um certo distanciamento e passou a ser tratado por camarada presidente.
Parece um quase-nada, mas é um tudo de diferença, que de mal não augura nada, é verdade, mas muda muita coisa; antes de Neto, a preocupação dos militantes da cúpula do MPLA, Mário de Andrade, Lara, Viriato, Hugo de Menezes e Dr. Eduardo dos Santos, mau grado os arranhões que se deram uns aos outros, especialmente no que diz respeito ao relacionamento complicado entre Lúcio Lara e Viriato da Cruz, a preocupação principal, dizíamos, era a de obedecer a uma certa democracia interna, com cada um a dar a sua opinião em vista de se conseguir chegar a um consenso, evidentemente tarefa muito mais difícil do que impor a sua vontade, como Agostinho Neto passou a fazer, por vezes, quando tomou em mão as rédeas de comando do MPLA.
Depois da sua eleição como presidente do MPLA, a filosofia do comando foi cambiada, e este último em pouco tempo passou de colegial a opacamente centralizado, com papel preponderante atribuído a Agostinho Neto.
Assim, se até 1962 o MPLA tinha um presidente, um secretário-geral e um tesoureiro, a partir da eleição de Agostinho Neto à presidência do movimento, na 1ª Conferência Nacional, todas essas funções passaram a ser prerrogativas suas. A partir dessa data é a Agostinho Neto que incumbe convocar o Comité Central, nomear e demitir responsáveis, fazer transferências de quadros, atribuir meios financeiros para as tarefas dos diferentes departamentos, definir e mesmo alterar a política e a estratégia do movimento.

A EXALTAÇÃO E A CONTROVERSA LIDERANÇA

Ao seu lado, a contribuir para a afirmação da sua liderança, estão dois mestiços que o acompanharão a vida inteira, Lúcio Lara e “Iko” Carreira. Dois trunfos da sua tranquilidade, pois nenhum deles poderia jamais afastá-lo do poder, por ser nessa altura impensável um mestiço obter apoios para liderar um movimento de libertação dum país da recém-libertada África Negra.
Mas, mesmo assim, a posição de líder que Agostinho Neto ocupava então nem por isso se consolidou, pelo contrário, suscitou, pela sua actuação de tendência centralizadora, comentários críticos de alguns camaradas, aproveitados num primeiro tempo por Viriato da Cruz – na medida em estavam lançadas as divergências entre os dois homens, este último maoísta e Neto pró-soviético – com o objectivo de denunciar abertamente um regime incompatível com a prática da democracia interna. Rapidamente as coisas azedaram e chegou-se mesmo – mas mais tarde -, ao extremo de Viriato se posicionar abertamente do lado da FNLA, ou seja, o avesso do MPLA. Era a primeira vez que se manifestava um grave fraccionismo no seio do movimento.
Agostinho Neto resolveu-o à sua maneira, mal, pela exclusão pura e simples dos seus adversários políticos. Num primeiro tempo graças a uma manobra no seio do Comité Central que levou à sua eleição como presidente e à supressão do cargo de secretário-geral do movimento, exercido até ai por Viriato (resultado dum escrutínio que nunca foi aceite pelo secretário-geral até aí ainda em exercício), mais tarde à agressão física, mais tarde ainda à eliminação física (assassinato) dos seus principais adversários políticos.
Segundo a historiadora portuguesa, Dalila Cabrita Mateus, as divisões no MPLA percorrem toda a história do movimento. E vai daí a dar um exemplo, datado deste período, «(…) no início dos anos 60, um informador conta à polícia ter assistido a uma cena de pugilato em que teriam estado envolvidos dois grupos: de um lado, Viriato da Cruz, Matias Miguéis e outros; do outro lado, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Henrique Carreira (Iko), Domingos da Silva, Aníbal de Melo, Deolinda Rodrigues, Eduardo Macedo dos Santos, Gentil Viana e Américo Boavida. Este grupo consegue dominar o primeiro, cujos membros se refugiam em casa de simpatizantes (Dalila Cabrita Mateus, PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974, Terramar, 2004, página 249)».
Dino Matrosse, nas suas “Memórias”, fazendo referência às visitas que Viriato da Cruz fazia à residência de Ndolo, onde ele residia após ter chegado à capital do Congo, relembra essa passagem da história do MPLA, situando-a a 7 de Julho de 1963[3].
Deolinda Rodrigues, na realidade prima de Agostinho Neto, ou melhor, na tradição africana, irmã, e isso porque o pai de Neto era irmão de pai e mãe da mãe de Deolinda, cujo pai era natural de Kissembe/Kalomboloca, e a mãe oriunda do Kwanza-Sul, também se refere a esta penosa época da história do MPLA.
Por exemplo, alguns meses depois da cena de pancadaria em Leopoldville, Deolinda, sempre preocupada com a formação duma Frente Nacional de combate ao colonialismo, assegura, numa carta endereçada a Maria, datada de 29.09.63, que «alguns camaradas sugerem uma reconciliação com Viriato» e questiona, «(…) Qual a vossa opinião? Que bases deve haver para tal reconciliação? (D.R. ibidem, pág. 141)». A querer unir.
Mais tarde, sempre na primeira linha de combate para criar uma Frente Unida de libertação de Angola, Deolinda lamenta, em carta datada do 5 de Novembro de 1963, enviada ao seu cúmplice amigo Ismael, o facto de Viriato ter distribuído um panfleto a acusar a ala de Neto de estar a informar os Portugueses. No dia seguinte, 6 de Novembro de 1963, envia outra carta ao camarada Miguel João, exortando-o a lutar pela união de forças, «Cada militante deve resistir à repressão de angolanos para com angolanos e todos juntos exigiremos a Unidade de todos os angolanos (D. Rodrigues, ibidem, pág. 155)», mas logo a seguir, na mesma carta, repete o que tinha escrito a Ismael e lamenta, «Ontem, o grupo de Viriato-Matias (Matias Miguéis) distribuiu outro panfleto em que insistem que nós estamos ao serviço dos Portugueses. Esta é a faceta mais dura da nossa luta aqui: constatar que entre militantes dum MPLA antigo, surgem estas insinuações desastrosas, oportunistas e enganadoras».
Sabe-se que de nada valeu o empenho das bases do MPLA para forçar o diálogo entre as duas alas rivais, de nada valeu o esforço de Deolinda Rodrigues para mudar nem que fosse um quase-nada o curso dos acontecimentos, fracasso do qual ficou o registo de um certo e visível arrefecimento das suas relações como seu tio Neto. Nada valeu de nada. Neto manteve-se insensível a todos os apelos e a rivalidade sino-soviética, que já era o catalisador das desavenças entre a FNLA e o MPLA, roía agora nas entranhas do MPLA os alicerces da sua própria sobrevivência.

O assassinato de Matias Miguéis

Por altura da passagem, ou, como sói dizer-se, a cavalo de 1965 para 1966, Agostinho Neto ver-se-á envolvido, mesmo comprometido e acusado de ser o mentor do assassinato de Matias Miguéis, em circunstâncias que em nada dignificam o seu nome e a áurea de líder imortal que o distingue dos demais patriotas angolanos.
Evidentemente que essa versão é rejeitada em bloco pelo MPLA oficial, não obstante a existência de múltiplos testemunhos concordantes oriundos de várias e diferenciadas fontes.
“Iko” Carreira, por exemplo, sempre afirmou sem medo de ser desmentido que pouco ou nada sabia do caso. Nas suas “Memórias”, referindo-se ao facto de Matias Miguéis ter sido eleito vice-presidente do MPLA na 1ª Conferência Nacional de Leopoldville em Dezembro de 1962, “Iko” alude ao destino trágico desse nacionalista numa única frase: «(…) dizem ter sido mais tarde detido pela polícia congolesa (pág. 61)».
É tudo, nem mais uma vírgula escreveu sobre o caso, como se fosse possível um acontecimento tão importante ser do desconhecimento do responsável da Segurança de um MPLA. que, ao tempo, controlava a par e passo as actividades do fraccionista Matias Miguéis! É enorme, mas corresponde à opacidade difusa que envolve quase todas as actividades do MPLA. Uma faceta muito sua, talvez resquício da política seguida nos tempos da guerrilha, de desconfiança de tudo e de todos que ainda nos dias de hoje se verifica no desempenho do partido dos camaradas.
Tal atitude de manifesta ignorância sobre o “caso Miguéis” estende-se naturalmente a todas as personalidades que assumem alguma responsabilidade no Movimento. Ninguém sabe nada, ou então muito pouca coisa, sempre sob a forma de “ouvi dizer”. E no entanto Matias Miguéis foi mesmo assassinado por homens do MPLA. É um facto!
Dino Matrosse, ele, não se refere à morte trágica de Matias Miguéis, mas dá conta da sua intervenção na algarada do 7 de Julho de 1963.
Nesse dia tinha sido organizada nas instalações do Corpo de Voluntários Angolanos de Ajuda aos Refugiados (CVAAR), por convocação do então do segundo vice-presidente do MPLA, reverendo Domingos da Silva, uma reunião de dirigentes e militantes do MPLA, com excepção dos elementos da ala de Viriato da Cruz. Quando a reunião já estava a decorrer apareceu um grupo de militantes fraccionistas à cabeça do qual se podia ver Matias Miguéis, que, a páginas tantas, tentou entrar à força na sala, «tendo sido impedido pelo sentinela, o camarada Salvador (conhecido por “Uaxile”, de seu nome de maquis) gerando-se uma grande confusão no local (…) De repente, assistiu-se a uma troca de tiros e escaramuças no exterior da sala e a reunião foi interrompida. Semeou-se o pânico generalizado no nosso seio. Entretanto, alguns de nós conseguiram escapar da zona do conflito, em busca de áreas de maior segurança. Tudo isso aconteceu em pleno dia, entre as 10 e 11 horas da manhã (Dino Matrosse, ibidem, pág. 46, Nzila)».
Citamos esta passagem porque ela testemunha e marca a rotura definitiva entre as duas tendências rivais do MPLA de 1963.
Daí em diante, a ala dissidente de Viriato da Cruz, Matias Miguéis, José Miguel e outros, criou um estrutura paralela dentro do MPLA e passou a exercer actividades no sentido de se opor com firmeza à direcção de Agostinho Neto, não hesitando a denegrir todas as suas iniciativas, táctica que conheceu a sua máxima expressão por altura da adesão de Viriato, Matias e outros dissidentes à FNLA/GRAE, em Abril de 1964, numa tentativa, diziam eles, de «(…)convencer Holden Roberto a receber auxílio da República Popular da China e aliar-se a este país (C. Pacheco, ibidem, nota 20, pág.77)».
«Neto era muito teimoso e não gostava de críticas (…) Era autoritário», declarou “Iko” Carreira em entrevista a José Pedro Castanheira, na revista Expresso de 19 de Outubro de 1996. «Neto perseguia os que não estavam de acordo com ele (idem)». Os que o conheceram bem, acordam-se para dizer que embora ele pudesse entender-se pontualmente com este ou aquele grupo, era a sua vontade que tinha que se impor. Não admira pois que chegassem até aos dias de hoje testemunhos segundo os quais quem não estivesse de acordo com Neto podia ser preso. Mas o pior de tudo é que a partir da sua intolerância viria a nascer uma estratégia de eliminação física, talvez lavrada não por ele, mas sim por alguns dos seus mais fiéis servidores, mais papistas que o “papa”, sem escrúpulos e não olhando a meios para atingir os objectivos traçados pelo chefe.
Em Novembro de 1965, no regresso duma longa viagem à cidade de Jacarta, capital da Indonésia, depois de escalas em Paris e Argel, Matias Miguéis chegava a Brazzaville em companhia do seu companheiro José Miguel (outro dissidente do MPLA). Na realidade, ali, na capital do Congo, os dois amigos também se encontravam em trânsito, pois o seu destino final era Leopoldville. Dirigiram-se para o cais fluvial e quando estavam à espera de poder embarcar numa dessas vedetas que fazem regularmente a travessia do rio, foram interceptados por um grupo da ala de Agostinho Neto. Imediatamente foram presos e mais tarde torturados e executados da maneira mais bestial, enterrados até ao pescoço e com direito a receberem jactos de urina, lançados por antigos companheiros de luta pela libertação de Angola, a regarem-lhes a cabeça!!… Mais tarde, Deolinda Rodrigues, vítima duma emboscada urdida por soldados da UPA, foi violada, torturada e assassinada em retaliação da morte cruel de Matias Miguéis.
De tudo o que está escrito aqui atrás, há testemunhas.
Segundo a PIDE/DGS, o motorista da viatura que levou os dois homens depois da sua captura de Brazzaville a Dolisie, era um chamado Francisco, Ferro de Aço, mais tarde abatido a tiro, porque ameaçava falar. O seu companheiro de missão era um tal Fernando Manuel Paiva, aliás, Bula Matadi. Um dos executores é Agostinho Morais, Kalé, também assassinado em Cabinda. O outro é Aristides de Sousa Mateus Cadete, Kavunga, natural de Catete premiado com a ascensão a membro do Comité director e a comandante da 4ª Região Militar (cf. Cabrita, Purga em Angola, pág. 36, ASA, 2007).
[1] Segundo Júlio Pequito, na década de 1950, viviam em Lisboa, na mesma casa, quatro membros do PCP, ele, Pequito, Veiga de Oliveira,, o engenheiro Pereira Gomes e o Dr. Agostinho Neto, in “Agostinho Neto, uma vida sem tréguas” (nota 40, Cabrita, opus ibidem, pág.28)
[2]
Deolinda Rodrigues assinala a sua chegada a Leopoldville numa carta datada do 6 de Agosto de 1962, enviada ao seu prezado Kanhamena, privilegiado correspondente (seu camarada de luta, Ismael Martins): «há agora uma semana que o Dr. Neto já está connosco a trabalhar activamente aqui. (…) (Deolinda Rodrigues, “Cartas de Langidila e outros documentos”, pág. 135, Nzila, 2004)»)
6 No dia 10 de Julho de 1963 os membros de um comité da OUA chegaram a Leopoldville. O MPLA, dividido e desacreditado, deu a pior das impressões à missão, que de per si já era pro FNLA/GRAE, a despeito de o seu objectivo ser pelo essencial unir as forças nacionalistas angolanas à volta duma organização efectiva e credível. «Primeiro, ao conceber uma tentativa mal amanhada de criar uma frente comum rival da FNLA, a Frente Democrática da Libertação de Angola (FDLA), apoiada pelo governo do Congo (Brazzaville), o que resultou no descrédito do MPLA, por se ter associado directamente a dois partidos de que se suspeitava serem colaboradores dos portugueses. Segundo, Mário de Andrade saiu nessa altura do movimento, aparentemente em protesto à iniciativa da FDLA. O seu abandono danificou ainda mais a imagem do MPLA. Terceiro, Viriato da Cruz fez revelações embaraçosas sobre a ineficácia da força militar do MPLA, indicando que, ao contrário dos 10.000 elementos armados que se afirmava ter, uma capacidade deliberadamente exagerada para obter apoios, o MPLA contava apenas com cerca de 250 combatentes (Tese de doutoramento de J.M: Mbah, Nzila)».
(…) «Quando chegamos a Leopoldville, o saudosos presidente Agostinho Neto tinha acabado de ser eleito, na Primeira Conferência Nacional do Movimento (em Dezembro de 1962), onde foi eleita igualmente uma nova Direcção sob a sua presidência e extinto o cargo de Secretário Geral até ali desempenhado por Viriato da Cruz» (Dino Matrosse, “Memórias”, pág. 44, Editorial Nzila, Luanda, 2005)». Por outro lado, note-se que nessa altura Matias Miguéis ainda não era personna non grata, pois foi eleito primeiro vice-presidente do MPLA, cargo que desempenhou meia-dúzia de meses, nem isso, demitindo-se por se manifestarem incompatibilidades notórias entre ele e Agostinho Neto.
[3]
«(…) Ele contactou, a sós, apenas alguns elementos que connosco viviam, abordando-os sobre questões então por nós desconhecidas. Só mais tarde soube que Viriato se deslocara para aquela residência a fim de contactar e aliciar certos camaradas, cujos nomes dispenso mencionar e que mais tarde viriam a fazer parte do primeiro fraccionismo no seio do MPLA, que culminou (!?) com a pancadaria e divisão no seio do MPLA, a 7 de Julho de 1963, em plena cidade de Leopoldville (Dino Matrosse , ibidem, pág. 44)».
Este texto transcreve passagens do livro de William Tonet, a editar brevemente.





Fontes
  1. 27 de Maio de 1977 – Em Nome da Memória da História e da Justiça”. Folha 8. Sem data de publicação. Recuperado a 28 de Maio de 2020 às 19:45.
  2. 27 de Maio, Nunca Mais”. William Tonet. Folha 8. Publicado a 27 de Maio de 2020. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 15:30.
  3. 27 de Maio de 77 nas páginas do Jornal de Angola”.Quimbanze. Quitexe. Publicado a 27 de Maio de 2012 às 07:43. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 20:59.
  4. 27 de Maio de 77 nas páginas do Jornal de Angola -2”.Quimbanze. Quitexe. Publicado a 31 de Maio de 2012 às 07:31. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 21:13.
  5. Angola 77”. Nicolau Santos, Alexandra Simões de Abreu e Gustavo Costa. Expresso. Publicado a 04 de Junho de 2017 às 9h00. Recuperado a 28 de Maio de 2020 às 21h18. 
  6. Fraccionismo”. Wikipédia, a enciclopédia livre. Esta página foi editada pela última vez às 06h53min de 3 de maio de 2020. Recuperada às 21h23min de 28 de maio de 2020.
  7. 27 de Maio: Onde estão os corpos das vítimas?”. AngoNoticias. Publicado a 25 de Maio de 2020. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 21:26.
  8. Angola assinala 43 anos da tragédia do 27 de Maio”. Jornal de Angola. Publicado a 27 de Maio de 2020. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 21:29.
  9. 27 de Maio: Recordar para prevenir”. Santos Vilola. Jornal de Angola. Publicado a 27 de Maio de 2020. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 21:31.
  10. 27 de maio de 1977”. Deutsche Welle. Publicado a 27 de Maio de 2020. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 21.33.
  11. “O 27 de Maio foi uma sucessão de erros políticos históricos lamentáveis” - Min. da Justiça”. Angola24Horas. Publicado a 28 de Maio de 2020. Recuperado a a 28 de Maio de 2020 às 21:37.







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27 de maio de 2020

Luanda, 27 de Maio de 1977

Presidente Neto, Minist.da Relações exterior JES e Nito, Minist. da Administração Interna



José Eduardo dos Santos: 
o principal vencedor do 27 de Maio de 1977?

Foi José Eduardo dos Santos que convenceu a direcção soviética de que a estabilidade de Agostinho Neto era melhor para a URSS do que a confusão que seria inevitável se Nito Alves tivesse êxito.

Por José Milhazes no Observador a 22 de Maio de 2020, às 00:02. Tem comentários.

Normalmente, quando se fala do 27 de Maio de 1977 na história de Angola, dois nomes surgem no centro da luta pelo poder no Movimento Popular: Agostinho Neto, então Presidente da República, e Nito Alves, dirige da oposição radical no seio do MPLA. Porém, é preciso prestar atenção à figura de José Eduardo dos Santos, então ministro dos Negócios Estrangeiros daquela antiga colónia portuguesa, nesses acontecimentos.

Parece não haver dúvidas de que os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 foram o corolário sangrento da luta entre fracções políticas dentro do MPLA, uma prática historicamente normal no seio de movimentos e partidos marxistas-leninistas. Mas há ainda muitos episódios que esperam o seu esclarecimento cabal, o que só se tornará possível com o acesso a arquivos angolanos, soviéticos e cubanos.

Um desses episódios é o do papel da União Soviética na luta política no seio do MPLA. Alguns dirigentes angolanos acusaram a cúpula do Partido Comunista da União Soviética de ter apoiado o “golpe” de Nito Alves com vista a derrubar Agostinho Neto, por considerar que este se estava a afastar do “marxismo-lenismo”, ou seja, da “linha soviética”.

Uma das fundamentações dessa tese é o facto de Nito Alves ter representado o MPLA no XXV Congresso do Partido Comunista da URSS, que se realizou entre 24 de Fevereiro e 5 de março de 1976. Mas esse facto ainda não é prova do apoio do Kremlin ao revolucionário angolano. Recordamos, porém, que ele foi nomeado pelo movimento angolano para o representar no fórum máximo dos comunistas soviéticos e não por estes.

Por outro lado, segundo alguns investigadores, nomeadamente Alexey Jarov, veterano soviético da guerra civil em Angola, Nito Alves poderia ter utilizado a sua visita a Moscovo para sondar a direcção soviética sobre ­a sua acção e teria ficado convencido do seu apoio. Oleg Arkataev e Stanislav Frenorov escrevem mesmo que “na Secção Internacional do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética simpatizavam com Alves e olhavam com desconfiança para Neto e Carreira devido à demasiada iniciativa própria”.  Sublinhe-se também que, do ponto de vista ideológico, as ideias de Nito Alves como a aceleração do processo revolucionário em Angola estavam mais próximas dos ideólogos soviéticos do que as de Agostinho Neto.

Porém, como é sabido, os soviéticos não foram em apoio dos “nitistas”, deixando aos cubanos a salvação do regime de Agostinho Neto.

Isto pareceu dever-se, entre outros factores, à febril actividade de José Eduardo Santos, então ministro angolano dos Negócios Estrangeiros. Segundo Alexey Jarov, foi esse dirigente angolano que convenceu a direcção soviética de que a estabilidade de Neto era melhor para a URSS do que a confusão que seria inevitável se Alves tivesse êxito.

Oleg Arkataev e Stanislav Frenorov apoiam esta posição, sublinhando que “ajudou o facto de o ministro [JES], na sua juventude, ter recebido a sua instrução de engenheiro de petróleos na capital da República Socialista Soviética do Azerbaijão”. Além disso, ele teve um curso intensivo anual de preparação militar num dos institutos da URSS, tendo obtido a especialidade de oficial de comunicações.

José Eduardo dos Santos ficou sob a mira dos serviços secretos soviéticos após o seu regresso da URSS. O agente Boris Putilin recorda vários contactos com o futuro Presidente de Angola: “Em Fevereiro de 1974, eu cheguei ao Congo (Brazzavile). Trabalhava ai como primeiro secretário da embaixada: a direcção fundamental do trabalho eram os contactos com o MPLA.

Nos primeiros tempos, eu aí contactava, fundamentalmente, com o segundo homem no movimento: Lúcio Lara. Ele era o representante do MPLA…

Agostinho Neto apareceu (em Brazzavile) no início de 1975. Em 1974, José Eduardo dos Santos tornou-se o dirigente oficial da representação de Angola em Brazzavile. E visto que ele era o representante oficial, eu mantinha relações com Lúcio Lara e José Eduardo dos Santos. Este, nessa altura, estava casado com uma russa, já tinha nascido a filha. Por isso, ele, de quando em quando, vinha visitar-me”.

Outro encontro teve lugar num dia histórico para Angola: “A direcção soviética enviou à cerimónia oficial de 11 de Novembro de proclamação da independência do Estado de Angola uma delegação dirigida por Afanasseko, embaixador soviético em Brazzavile, eu também fazia parte. Da delegação faziam parte também embaixadores dos países socialistas no Congo. Chegámos a Luanda e no aeródromo não havia ninguém. O nosso avião Antonov-12 (sob a bandeira da Aeroflot) aterrou. Baixaram-se as escadas. Saí e vi perante mim, a cerca de dez-quinze passos, um soldado angolano com uma espingarda americana, pendurada por um fio. Os olhos do soldado estavam vazios. Ele segurava a mão no gatilho e apontava para a minha barriga. Não se sabia quem mandava no aeródromo. Além disso, eu não podia correr até ao sentinela, porque ela abriria fogo e, a dez metros, furava-me todo. Nos seus olhos não havia qualquer sentido e penso que ele não sabia português. Fui salvo pelo chefe da segurança do aeroporto, um angolano que me conhecia perfeitamente. Ele correu 150 metros aos gritos: “Boris!”. Isso ajudou-me. Depois fomos levados para o hotel. Nessa altura estava lá ao já falecidos Alexei Ivanovitch Dubenko e Igor Uvarov”.

“Às 11 horas da manhã”, continua o agente soviético, “chegámos do hotel à sala do município para a cerimónia. Ele foi iniciada pelo nosso embaixador no Congo, que enviou saudações da direcção soviética. Ele falava da varanda, debaixo da qual tinha lugar um comício na praça. José Eduardo dos Santos foi o tradutor de russo para português. Então, ele era ministro dos Negócios Estrangeiros”.

Os estudiosos russos consideram que a carreira de José Eduardo dos Santos deu um grande salto precisamente depois da derrota dos “nitistas”.

“A partir desse momento, a carreira política do MNE de Angola sofreu um brusco crescimento. As relações com a URSS concentraram-se completamente nele. Os fornecimentos daí: fosse de tanques, bustos de Lenine ou outros objectos necessários para a estabilidade do Estado e para o papel dirigente do partido” – consideram Oleg Arkataev e Stanislav Frenorov, acrescentando que a actividade de JES no 27 de Maio de 1977 contribuiu em grande parte para ele se tornar o herdeiro de Agostinho Neto.

Comentários
  1. Adelino Lopes [22 de Maio de 2020, às 18:41]:
    Chamou-me particularmente à atenção  a frase ““na Secção Internacional do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética simpatizavam com Alves e olhavam com desconfiança para Neto e Carreira devido à demasiada iniciativa própria””. Elucidativo.
  2. Venezuela Livre [22 de Maio de 2020, às 20:09]:
    Jes vai direto ao inferno.
  3. Álvaro Aragão Athayde [25 de Maio de 2020, às 23:05]:
    Gostei.
    O PCURSS estava com o Nito Alves e depois virou… “isto” talvez o explique.
    Os Soviéticos não gostavam nem do Neto nem do Lara porque eram muito “independentes”… Titistas no calão da época.
    E que depois do 27 de Maio os Soviéticos achavam que eram donos do ZeDu qualquer cego via.
    Enganaram-se, mas isso são outros entretantos.
    Devagarinho, devagarinho, vai acabar por se saber tudo.





LANÇAMENTO DO LIVRO

FRACCIONISMO: 
QUEM DISSE O QUÊ NO «JORNAL DE ANGOLA» ANTES E DEPOIS DO 27 DE MAIO DE 1977

Dia 27 de Maio | 16H |
Local: Jardim das Francesinhas, sito na R. Francesinhas, 1200-661 - Lisboa  
(perto da Assembleia da República)

Este ano o 27 de Maio de 1977 voltará a ser lembrado. Será assinalado pela ELIVULU Editora com o lançamento do livro Fraccionismo – Quem Disse o Quê no Jornal de Angola Antes e Depois do 27 de Maio de 1977 da jornalista e investigadora Leonor Figueiredo. Uma obra que se junta à nossa colecção «Biblioteca de Cárcere». 
Numa altura em que o governo angolano saiu do silêncio com a criação da «Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos», contestada por familiares e vítimas do 27, faz todo o sentido dar à estampa as declarações então proferidas no jornal do poder. 
Passados 43 anos do massacre que ceifou a vida de milhares de angolano(a)s, Leonor Figueiredo aborda o tema, lembrando os discursos directos de Agostinho Neto, Lúcio Lara, Iko Carreira, Beto Van Dúnem, Saidy Mingas, Dino Matross, Lopo do Nascimento, José Eduardo dos Santos e outros.

«Este trabalho pretende espelhar as páginas do Jornal de Angola entre 1 de Janeiro e 11 de Dezembro de 1977, tendo como moldura os acontecimentos que se iniciaram a 27 de Maio. Trata-se de interrogar o passado recente, percorrendo o caminho do “fraccionismo” traçado pelo jornal do poder. Quisemos saber, no período pré-27, quem falou de “fraccionismo” e como se lhe referiu, além de verificar como este órgão de comunicação social noticiou, adjectivou e comentou, directa e indirectamente a «fracção» discordante da direcção do MPLA. No pós-27 de Maio, o foco incidiu no que foi noticiado e nos dados oficiais que daí se podem inferir, quer sobre o MPLA, quer sobre os “fraccionistas”». A autora especifica.

O livro será apresentado a 27 de Maio, às 16H, num jardim de Lisboa, pelo sociólogo Manuel dos Santos. Estarão presentes pouquíssimos convidados, devido à pandemia da Covid-19. 
Se as condições técnicas permitirem, tentaremos a transmissão online a partir da nossa página em https://www.facebook.com/elivulu/.

PARA COMPRA ANTECIPADA

Em Portugal a compra realiza-se por encomenda e enviado por correio CTT. Basta ligar ou enviar mensagem para +351920540815, também conectado ao WhatsApp, ou ainda por email: comercial@elivulu.org

A obra pode ser adquirida na livraria Komutú, em Luanda, localizada no Nova Vida, rua 54, edifício Kissama, loja 3B, contactável a partir do número +244936763484.




Fontes
  1. Imagem: "JES – Apoiou Nito Alves". Nguituka Salomão. Angola24horas. Publicado a 21 de Maio de 2015, às 19:06.
  2.  Texto: "José Eduardo dos Santos: o principal vencedor do 27 de Maio de 1977?". José Milhazes. Observador. Publicado a 22 de Maio de 2020, às 00:02.
  3.  Livro: Old Boys Network.







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