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19 de setembro de 2020

A Questão Colonial: Um prolegómeno.

Um mapa que é todo um programa: “Portugal não é um país pequeno”.
Estava em todas as escolas do país.
E fora organizado por Henrique Galvão, que mais tarde se tornaria um temível opositor de Salazar (porquê?).


Muito se debateu e se debate, em Portugal e no seu Império, ou Antigo Império, ou CPLP, a Questão Colonial, ou a Questão do Ultramar, como preferirem, e eu gostaria de colocar uma questão, uma questão preliminar:

O Além-Mar, as Colónias, o Ultramar, 
como preferirem, 
faziam, ou não, parte integrante da Pátria?

Norton de Matos e Salazar achavam que sim. Cunha Leal e Marcello Caetano achavam que não. 


Os primeiros, como achavam que sim, achavam que era tão traição à pátria, abandonar, vender, trocar, Goa, quando o seria abandonar, vender, trocar, o Algarve


Os segundos, como achavam que não, estavam abertos à hipótese de abandonar, vender, trocar, Goa, mas não à de abandonar, vender, trocar, o Algarve.


Esta é a questão preliminar que coloco:

Parece-me que existiram, e existem, duas concepções de Portugal.

Para uns Portugal era, e é, só o Rectângulo Ibérico. Um território actualmente designado por Continente, mas que já foi designado por Metrópole e por Reino.

Para outros Portugal era, e é, esse mesmo Rectângulo e muito mais.

Esta questão decorre:
  • Da leitura, ainda não terminada, dos dois livros que José António Saraiva recentemente publicou.
  • Da leitura, já terminada, de um ensaio publicado por Vasco Pulido Valente em 2003. 
  • Da constatação de que ascensão da China, do Irão, da Rússia, e a descensão dos Estados Unidos da América e da União Europeia, colocaram em causa os pressupostos em que se baseou a fundação da actual Terceira Republica Portuguesa.





Fonte (da imagem) e Referências

  1. A guerra colonial na grande estratégia de Salazar”. Fernando Martins. Observador. Publicado a 05 de Outubro de 2014, às 14:12.
  2. Marcello Caetano : as desventuras da razão. Vasco Pulido Valente. Gótica. Publicado em Novembro de 2002.
  3. Salazar - A Queda de uma Cadeira que Não Existia. José António Saraiva. Gradiva. Publicado em Junho de 2020.
  4. Salazar e Caetano - O Tempo em Que Ambos Acreditavam Chefiar o Governo. José António Saraiva. Gradiva. Publicado em Agosto de 2020.







Etiqueta principal: Questão Colonial.

11 de fevereiro de 2019

Fernando Pessoa, o escravocrata racista

Luzia Moniz (imagem Angop)



Um artigo de Luzia Moniz, publicado no Jornal de Angola e republicado por G. Patissa no blogue Angola, Debates & Ideias, e um comentário de Álvaro Aragão Athayde, publicado no referido blogue.



CPLP escolhe
escravocrata racista para projecto juvenil

Aos 28 anos escreveu: “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter.

Por Luzia Moniz no Jornal de Angola a 10 de Fevereiro, 2019

O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude”.

Em 1917, aos 29 anos continua: “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.”

Aos 40 anos consolida a sua ideologia racista, escrevendo: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs”?

Fernando Pessoa, dono desse ignóbil pensamento, é a figura escolhida pela CPLP para patrono de um projecto de intercâmbio universitário no Espaço de Língua Portuguesa. Essa iniciativa, cópia do programa europeu Erasmus, visa a educação, formação e mobilidade de jovens do espaço de língua portuguesa, oferecendo-lhes oportunidades de estudo, aquisição de experiência e voluntariado por um período curto num dos países da CPLP à sua escolha. Que Portugal, país onde a mentalidade esclavagista fascista ainda é dominante, tenha escolhido promover, branquear essa figura sinistra não me espanta. Agora, o que verdadeiramente me deixa perplexa é a aceitação pelos países africanos, as vítimas da escravatura.

Se foi para a isso que Portugal fez a guerra para assumir o secretariado executivo da CPLP, tudo indica que a coisa começa mal.

Denunciei isso mesmo, esta quarta-feira, na Assembleia da República de Portugal, durante a cerimónia de abertura do ano da CPLP para a Juventude, onde estavam deputados portugueses, governantes dos Estados da CPLP, jovens, activistas, intelectuais e académicos afro-descendentes, brasileiros, portugueses e africanos.

Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a Humanidade: a escravatura.

Atribuir o seu nome a um projecto que envolve jovens, descendentes dos escravizados, configura um insulto fascista.

Na AR alguém, para tentar justificar o injustificável, alegou que as convicções esclavagistas fascistas de Pessoa reflectem o pensamento da sua época, ignorando que, por exemplo, Eça de Queirós, contemporâneo de Pessoa, era contra a Escravatura e que, quando Pessoa escreve tais alarvidades, já a escravatura tinha sido abolida oficialmente. Outros diziam que precisamos de olhar para o futuro, esquecendo o passado. Como se Pessoa fosse futuro. Pessoa representa o que é preciso combater hoje para defender o futuro. Como construir um futuro salutar sem olhar para os erros do passado?

E se nos cingirmos apenas ao “pensamento da época”, qualquer dia temos o nome de outro colonialista-fascista António de Oliveira Salazar atribuído ao Conselho de Finanças da CPLP, com o argumento de que “tinha as contas em ordem” e de que foi “fascista à época”.

Se se pretende criar uma comunidade envolvendo as populações e não se limitando aos políticos, mais ou menos distraídos, é imperativo que o nome de Fernando Pessoa não figure em projectos comuns. Em sua substituição, sugeri Mário Pinto de Andrade, académico, um dos mais brilhantes intelectuais do espaço de língua portuguesa. Angolano que iniciou o seu percurso académico em Angola, passando por Portugal antes de ser ministro da Informação e Cultura na Guiné Bissau, que teve passaporte cabo-verdiano e deu aulas em Moçambique.

Espera-se dos países africanos membros que revertam essa situação, opondo-se ao nome de Fernando Pessoa, mesmo que com esse digno gesto se crie um novo irritante. Os irmãos de Cabo verde, que neste momento presidem a CPLP, têm uma responsabilidade acrescida nesta questão. Se Portugal olha para a CPLP como um instrumento de dominação dos outros, cabe-nos a nós, africanos, impedir que isso aconteça.



Emigre para os EUA, cara Luzia Moniz

Por Álvaro Aragão Athayde em Angola, Debates & Ideias a 11 de Fevereiro de 2019, às 00:33 

Que Luzia Moniz afirme, cito Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso., diz quanto necessita de ser dito.

Recomendo vivamente a Luzia Moniz que emigre para os Estados Unidos da América onde, estou certo, se sentirá menos descriminada.



Fontes
  1. "CPLP escolhe escravocrata racista para projecto juvenil", Luzia Moniz, Jornal de Angola a 10 de Fevereiro, 2019.
  2. "Luzia Moniz contesta figura de Pessoa | CPLP escolhe escravocrata racista para projecto juvenil", G. Patissa, Angola Debates e Ideias, 10 de Fevereiro, 2019.


Etiqueta principal: Pós-Neocolonialismo.
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