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22 de fevereiro de 2021

“Quinta dos Animais” ou “O Triunfo dos Porcos”

 


Li esta obra há muitos anos, há tantos anos que já nem sei, e não é que ao voltar a ser autorizada a venda de livros pelo nosso governo tive a grata surpresa de verificar que a Porto Editora a tinha reeditado em Janeiro de 2021?

Comprei-a como é evidente, até porque o exemplar que tinha lido também estava perdido há muitos anos, há tantos anos que também já nem sei.

Comprei-a, relia-a e recomendo vivamente a sua leitura, a todos. A Todos!

A Civis, Militares e Religiosos.

A Brancos, Pretos, Amarelos, Vermelhos e Riscados

A Esquerdistas, Direitistas, Centristas, Conservadores e Progressistas.

A Monárquicos, Republicanos, Católicos, Maçons, Democratas, Socialistas, Comunistas, Anarco-Sindicalistas, Nacional-Sindicalistas e etc. por aí fora.

Lede. Lede a fábula da Quinta dos Animais. Lede!







Etiqueta principal: Fascismo Pós-Moderno.

26 de dezembro de 2020

Identidades e Poder

 


Um artigo de Nelson Faria, da Sociedade de Jesus, e um comentário meu.


Quem semeia identidades, colhe tempestades

Os interesses identitários estão a arrastar-nos para um estado de tempestade social. A necessária correção de trajetória advirá através da redescoberta do bem comum, e do restabelecer da confiança mútua.

Por P. Nelson Faria, sj em Ponto SJ a 21 de Dezembro de 2020.

Alegro-me com o momento atual de atenção generalizada à discriminação e às injustiças que assolam a nossa sociedade. Mas não resisto a franzir o sobrolho quando me encontro diante de comentários como “és homem, não entendes”, “por seres branco não compreendes”, ou ainda “se discordas és homófobo”. Naturalmente, pelo ódio e exclusão que já despoletam, perturbo-me mais quando escuto “volta para a tua terra”, “o lugar da mulher é na cozinha” ou “homossexualidade é perversão”. Contudo, creio que em todas elas encontramos um excesso de sentimento e um défice de razão.

Tem-se generalizado um tipo de discurso no espaço público em que o que releva não é a opinião, os valores e o caráter de alguém, mas sim a cor da sua pele, a sua orientação sexual, o seu género, ou a tradição religiosa a que pertence. Esta pulsão para identificar o sujeito com um coletivo é acompanhada por uma tendência em reduzir a complexidade das nossas relações em sociedade e toda a nossa história partilhada, a dois papéis sociais “todo-explicativos”: privilegiados e oprimidos. Isto é, em função do coletivo em que somos incluídos, somos opressores ou vítimas, e seremos julgados como tal.

Há uma degradação da nossa capacidade de pensar e sonhar juntos.

Abundam narrativas de vitimização em que o “nós” se restringe à “identidade de pertença”, seja ela ser homem ou mulher, ser nacional ou estrangeiro, ser branco ou negro, heterossexual ou LGBT+. Aparentemente, parece que nos esquecemos que, além das “identidades de pertença” – centradas no género, ideologia, nacionalidade, orientação sexual, ou sectarismos religiosos – existem também “comunidades de pertença” – como família, bairro, cidade, nação e, no seio da Igreja católica, paróquias. Nestas, a primeira pessoa do plural – “nós” – pode ser conjugada de forma a incluir outros que não se encontram dentro do meu campo de afinidades ideológicas, identitárias, étnicas ou religiosas.

Regresso ao ponto de partida: que da previsão constitucional que proíbe a discriminação em função da nacionalidade, sexo, raça, religião e orientação sexual, tenhamos passado a um estado de alerta social, é um grande feito e devemos louvá-lo. E muito há ainda por fazer para passar de um estado de alerta à efetiva correção das desigualdades. Contudo, na forma como debatemos, parece evidente que há uma degradação da nossa capacidade de pensar e sonhar juntos.

O semear constante dos interesses identitários no espaço público está a arrastar-nos para um estado de tempestade social em que as distintas identidades de pertença se fragmentam e se enquistam. Uma correção de trajetória é crucial, e creio que o poderemos fazer redescobrindo o bem comum e restabelecendo a confiança mútua.

Temos de ousar habitar um campo social em que outros existem, e em que o “nós” político é mais rico que os interesses da minha identidade de pertença.

Comecemos pelo bem comum. A deslocalização do centro da nossa atenção das comunidades em direção às identidades de pertença faz com que a atividade política negligencie o todo em função de fragmentos da sociedade. Este movimento de substituição tem um impacto claro na forma como analisamos a realidade: se o fragmento dita a forma como vejo o todo, o deslize em confundir “interesse de um segmento” com “interesse de todos” é previsível e, temo, inevitável.

Sendo indiscutível que há situações de injustiça que reclamam ações específicas e direcionadas, estas devem ser gizadas a partir de um pensamento que possibilite, ao mesmo tempo, a reparação da injustiça e a proposição de um caminho comum de realização pessoal e comunitário. O reconhecimento do “eu” é fundamental e deve ser preservado, mas quando sonhamos o destino dos nossos bairros, cidades, regiões e nações, quando discutimos temas como família e justiça social, temos de aprender a conjugar a primeira pessoa do plural.

Temos de ousar habitar um campo social em que outros existem, e em que o “nós” político é mais rico que os interesses da minha identidade de pertença. Devemos desejar integrar comunidades além do cluster identitário, e compreender que identidade é uma forma de fazer parte do todo. Urge que nos deixemos nortear pela vontade de construir um lugar onde talvez não estejamos de acordo em todas as matérias, mas em que possamos respeitosamente viver com o diferente, sem lhe negar dignidade nem horizonte de futuro.

Este retorcer da realidade lança-nos numa guerra de todos contra todos, pois a visão de fundo é a de que há inimigos partilhados, mas não um desiderato comum.

E isto traz-nos até ao segundo elemento da nossa correção de trajetória: o restabelecer da confiança mútua. A divisão redutora da sociedade e da nossa história a dois simples papéis – privilegiado ou oprimido – em função da nacionalidade, sexo, raça, religião e orientação sexual, torce a realidade. Dois exemplos: exigir uma distribuição da riqueza justa não nos pode levar a considerar todos os empresários como “exploradores”; que existam casos de marginalidade entre pessoas que não nasceram em Portugal, não justifica que todos os estrangeiros – ou uma nacionalidade específica – sejam apodados de criminosos. A narrativa redutora arrasta-nos inevitavelmente para o conflito.

Este retorcer da realidade lança-nos numa guerra de todos contra todos, pois a visão de fundo é a de que há inimigos partilhados, mas não um desiderato comum. O outro não deve ser o rival com quem nos digladiamos na arena, mas alguém com quem faço caminho, como numa corrida em que o pé esquerdo de um está atado ao pé direito do seguinte: só alcançaremos a meta ao pôr-nos de acordo sobre o objetivo comum e acertando passo.

Restabelecer a confiança mútua é exigente, pois implica uma conversão dos nossos hábitos de raciocínio. Há muitas razões para a rivalidade e para a suspeita, algumas delas baseadas na biografia de cada um de nós. Mas há que começar por reconhecer a nossa pertença mútua e a imprescindibilidade da colaboração. O ponto de partida não pode ser o conflito, mas a confiança.

Estabelecer relações de confiança mútua, em que se possa conjugar a primeira pessoa do plural de forma verdadeiramente inclusiva, apontando um bem comum, será tarefa inacabada, em constante devir e atualização. Sendo exigente e árduo, é também o único caminho que vale a pena seguir

Fotografia de Fares Hamouche – Unsplash

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

Original aqui.


Identidades e Poder

O título do artigo, “Quem semeia identidades, colhe tempestades”, chamou-me a atenção: um Jesuíta a pegar na questão da Política de Identidades, deixa-me cá ir ler!

Mas, confesso-o humildemente, a primeira oração “Alegro-me com o momento atual de atenção generalizada à discriminação e às injustiças que assolam a nossa sociedade.” desacorçoou-me – lá vinham as pieguices dos padrecas! – mas li o artigo todo.

Lido o artigo que se me oferece dizer?

Pareceu-me que o autor ainda não percebeu:
  1. Que a Política de Identidades é uma variação do antiquíssimo Dividir para conquistar. Dividir para reinar.
  2. Que para o grupo, ou grupos, que estão tentando tomar o poder a nível planetário o bem comum coincide com o seu próprio bem.
  3. Que o conflito que o articulista parece estar interessado em evitar não é evitável porque já está em curso, já se combate. Já se combate de armas na mão.
  4. Que orações como aquela com que abre o artigo não lhe granjeiam simpatia mas desprezo: o desprezo que os fortes têm pelos fracos.
  5. Que a Constituição da República Portuguesa não garante nada a ninguém porque quem está tentando tomar o poder a cumpre, ou a incumpre, quando lhe convém, sem punição.

Sei que é inadequado pedir a um Brâmane que pegue em armas, essa é a função dos Xátrias, mas é adequado pedir-lhe que identifique as questões e que, clara e verdadeiramente, explique o que se passa, o que está em causa.


Seja como fôr, e pesem embora as criticas que fiz, acho que valeu, e vale, muito a pena ler o artigo.




Etiqueta principal: Política de Identidades.

9 de novembro de 2019

A Nova Esquerda, o Poder e a Banalidade do Mal

APÓS AS LEGISLATIVAS EM PORTUGAL
Uma nova esquerda emerge na Europa


Diário

Bem sei que a cultura republicana está a desaparecer perante a cultura identitária mas, para a minha idade, um cidadão continua a ser uma entidade abstracta, sem saias, sem cor e sem gaguez. Todo este espectáculo me repugna e me enfurece.


2 de Novembro
O programa do governo desapareceu sob as saias do assessor de Joacine e a política desapareceu sob a pessoa de Joacine ela própria. Bem sei que a cultura republicana está a desaparecer perante a cultura identitária mas, para a minha idade, um cidadão continua a ser uma entidade abstracta, sem saias, sem cor e sem gaguez. Todo este espectáculo me repugna e me enfurece.
x
Quem leu as dezenas de artigos de propaganda que Rui Tavares escreveu tentando convencer as pessoas que o partido, absurdamente chamado Livre, era a esquerda europeia não pode deixar de ficar embasbacado. O submundo das querelas radicais continua a fervilhar como uma infecção, mesmo quando nós não damos por isso.

3 de Novembro
O debate entre os chefes dos partidos espanhóis foi surpreendentemente calmo e bem-educado. Deu muito a pensar à direita. E muitíssimo mais à esquerda. O Podemos atacou constantemente o PSOE pela simples razão de que quer ir para o governo com ele e o PSOE não quer (e não só por causa das divergências a respeito da Catalunha).

Em Portugal acontece exactamente a mesma coisa: o Bloco quer uma aliança, como eles dizem, “estável” e “a prazo” com o PS, isto é, para a legislatura, e o PS não quer.

O que Pedro Sánchez e António Costa temem acima de tudo é que a social-democracia europeia, vigente nos seus partidos, seja invadida e substituída pelos radicais à sua esquerda. Não sei bem o que se passa em Espanha. Em Portugal é óbvio que não há nenhuma diferença entre a direcção do Bloco e a esquerda do PS. Por isso Costa promoveu a direita do partido e a gente da sua confiança, e deixou Pedro Nuno Santos dependente da sua graça pessoal. Infelizmente, com o tempo, suspeito que o Podemos e o Bloco vão ganhar: o radicalismo urbano tendeu sempre a chegar às últimas consequências.

6 de Novembro
Duas técnicas da Segurança Social, seja isso o que for, estão acusadas de tirar duas filhas à mãe. Essa mãe era vítima de violência doméstica e fez, em protesto, vinte e seis dias de greve de fome (vinte e cinco chegam para matar o adulto médio) e ainda hoje só pode ver as filhas duas vezes por semana: aparentemente, o grande crime dela, que não se provou, foi ter abandonado a criança mais velha, de quatro anos, num café.

Uma pessoa pasma que dois funcionários administrativos – é isso que em última análise as duas “técnicas” são – possam separar uma família ao seu arbítrio pelo simples exercício de um poder que o Estado lhes conferiu. Mas podem. O jornalismo que por aí se esfalfa a examinar a justiça portuguesa nunca deu por esta barbaridade, que se instalou calada e burocraticamente. Quando a descobri, num noticiário da SIC, tremi de medo. Um dia destes aparece-me um “técnico” em casa, com um papel na mão, declara-me incapaz e mete-me num asilo; nenhum dos nossos políticos vai achar que se tratou de uma violação dos direitos do homem. A Constituição que se lixe.



Meu Comentário

Na Crónica de Vasco Pulido Valente no PÚBLICO a 09 de Novembro de 2019, às 12:58.

Só não percebe quem não quer perceber.

Por ordem cronológia: Leviatã por Thomas Hobbes, A Revolução Permanente por Leão Trotski, Hegemonia Cultural por Antonio Gramsci, O Homem Unidimensional por Herbert Marcuse e A Banalidade do Mal por Hannah Arendt.

Bom, e já agora, de George Orwell O Triunfo dos Porcos e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.




Etiqueta principal: Nova Esquerda.
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1 de janeiro de 2019

Alfredo Barroso & Jacques de Molay

Cruzes de Jerusalém e de Tomar.



Um artigo de Alfredo Barroso e um comentário de Álvaro Aragão Athayde.



artigo
Filipe o Belo e a reestruturação da dívida

Na manhã de 13 de Outubro de 1307, o Rei de França tomou para si a guarda dos bens da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo. O grão-mestre da Ordem, ex-banqueiro do monarca e de todos os príncipes da Europa, ardeu na fogueira. Foi uma das mais radicais reestruturações de sempre de uma dívida pública

Por Alfredo Barroso no Jornal i a 31 de Dezembro de 2018

No que respeita a finanças públicas, os portugueses, além de tementes a Deus (que não sabia nada de finanças), são ainda hoje dominados pelos fantasmas de Salazar, Cavaco, Gaspar e Centeno. Continuam a pensar que a deferência que o Estado deve ter pelos seus credores decorre duma obrigação moral e dum sentido da honra que devem prevalecer sobre os compromissos contraídos pelo Estado perante os cidadãos em matérias tão cruciais como o direito ao trabalho, à habitação, à saúde, à educação, à segurança social, à justiça, à cultura, à liberdade. Para os portugueses em geral, e para os políticos em especial, é mais importante cumprir o descomunal “serviço da dívida” do que os compromissos que o Estado assume de acordo com a Constituição, ainda que haja cidadãos no desemprego ou a sofrer nos hospitais, nas escolas ou nas empresas. O lema é: antes forretas do que gastadores. Nada de viver acima das suas possibilidades - tal só se admite aos ricos, que têm outras “possibilidades”.

Ora bem, a dívida pública atormenta-nos a todos, não é assim?! Ainda mais do que a dívida privada, mesmo se esta for bem maior do que a pública! Mas em vez de estar aqui a especular, prefiro lembrar uma história antiquíssima, que só a esta distância é que é divertida, e que não deve servir-nos de exemplo, sob pena de atraiçoarmos os fantasmas que mencionei no início deste texto. Para que ninguém me interprete mal, começo por recorrer aos conhecimentos de Carmen Reinhart e Kennet Rogoff, antigo economista-chefe do FMI, quando nos informam que, “entre 1500 e 1800, a França repudiou as suas dívidas em oito ocasiões”, e avisam: “Como os reis de França tinham por hábito mandar matar os grandes credores nacionais, o povo acabou por chamar “sangrias” a esses episódios”. Reconheça-se, aqui, uma das mais antigas e radicais formas de reestruturação da dívida pública de que há memória.

Decidi, porém, recuar no tempo mais ainda do que aquele célebre par de economistas e fazer uma breve incursão pelo reinado de Filipe IV (1268-1314), rei de França, de cognome “o Belo”, filho de Filipe III (1245-1285) e, sobretudo, neto do santo rei Luís IX (1214-1270), mais conhecido como São Luís. Ora, Filipe o Belo ascendeu ao trono quando o Reino de França estava à beira da falência, dado que, segundo uma regra característica do regime feudal, “o rei de França só pode viver do que é seu”. Isto é, não tinha o direito de lançar impostos em todo o país, sob pena dos seus vassalos, sobretudo os senhores feudais, se rebelarem e tentarem derrubá-lo do trono. Ora, os rendimentos da Coroa, certamente suficientes para mandar cantar os cegos, estavam longe de poder assegurar a fidelidade dos barões (cujas mordomias eram altas), ainda menos de poder honrar o cumprimento das alianças com Estados estrangeiros e de sustentar as indispensáveis guarnições militares, além das centenas de familiares da nobreza que iam aumentando a Corte e tinham de viver à custa dela. Pior ainda: não chegavam para financiar inevitáveis guerras, que custavam os olhos da cara.

Que fazer, então?, ter-se-á interrogado Filipe o Belo, que não tinha ao dispor nada que se pareça com os ensinamentos de Marx, Lenine e Milton Friedman. Pois bem, Filipe o Belo decidiu desvalorizar a sua moeda, pondo a funcionar a maquineta para cunhá-la e colocando menos prata e menos ouro em cada peça. O que lhe valeu ser “cunhado” por Dante como “Filipe o Belo, o moedeiro falso”. Mas foi graças à desvalorização da moeda que as rendas, as dívidas, os juros e os censos (feudais), que eram fixos e, por isso, não acompanhavam a inflação, diminuíram significativamente. Terá ficado o Rei ao abrigo das revoltas camponesas, mas quem não apreciou mesmo nada a decisão régia foram os grandes proprietários, os senhores feudais e o clero, clamando que o monarca estava a arruiná-los. O Rei fez orelhas moucas enquanto pôde mas, um sério conflito com o Papa Bonifácio VIII (1235-1303) fez com que ele precisasse do apoio, pelo menos político, dos senhores feudais e do clero, que desde logo exigiram, como contrapartida, o regresso à moeda forte do tempo do bondoso Rei Luís IX.

Claro que Filipe IV lhes fez a vontade. Já então a opção por uma política monetária era uma opção de classe. E as rendas triplicaram. Todavia, os operários, os pequenos comerciantes e artesãos de Paris aliaram-se e revoltaram-se, no dia 30 de Dezembro de 1306. O alvo que escolheram em primeiro lugar foi a casa de um burguês, Estienne Barbette, grande proprietário, conselheiro do Rei e guia deste em matéria de política financeira. Destruído todo o recheio dessa casa, os revoltosos dirigiram-se ao Templo (construído pela Ordem dos Templários em 1240), no qual se tinha refugiado Filipe o Belo. Reunido o seu Conselho, o Rei decidiu que as rendas seriam pagas pela antiga taxa, cedendo às exigências do povo. Mas a vitória popular teve um preço: 28 dos revoltosos, entre eles os três líderes da sublevação, foram enforcados em ulmeiros junto às quatro entradas de Paris. Entretanto, para compensar o enforcamento dos populares, o Rei abriu uma caça aos ricos (curioso equilibrista, este monarca!). É que ele precisava mesmo de dinheiro e de ouro. Tendo já obrigado as classes possidentes - senhores feudais, clero e burguesia - a entregar à Coroa um terço das suas loiças mais valiosas, cujo fabrico foi proibido, expulsou de França os Lombardos, agiotas e mercadores, confiscando os seus bens. A seguir decidiu expulsar os Judeus, em 1306, depois de apreender os seus móveis, as suas casas, o seu dinheiro, os seus créditos, tudo confiscado em benefício da Coroa, com os cofres quase a abarrotar.

O grande golpe, todavia, foi desferido contra a riquíssima e mui poderosa Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, no ano de 1307. Os Templários foram presos, acusados de cuspir na cruz, de renegar três vezes Deus, e de praticar a sodomia, o que escandalizou sumamente um monarca tão “piedoso” (ainda que não o pareça) como Filipe o Belo. A verdade é que os antigos “combatentes de vanguarda” das cruzadas tinham-se tornado, entretanto, em “banqueiros do Ocidente”, operando duma ponta à outra do Mediterrâneo, e da Europa a Jerusalém, graças à segurança e rapidez com que transferiam fundos, melhor do que as companhias italianas rivais. Por isso tinha o Rei de França confiado o seu Tesouro ao Templo, contraindo empréstimos junto dessa Ordem dos “soldados de Deus”, que se tornara rica, mesmo “demasiado rica”, com grandes domínios, terras cultivadas, mercados e portagens. Um verdadeiro “Estado dentro do Estado”, que apenas prestava contas perante o Papa.

Essa a razão que levou Filipe o Belo a vibrar-lhe, de surpresa, na manhã do dia 13 de Outubro de 1307, o golpe fatal. Espantados, os “pobres” Templários não resistiram, nem tiveram tempo para fugir com os seus tesouros ou para exportar os seus metais preciosos. O Rei optou por não confiscar os bens da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo, por pertencerem à Igreja, mas tomou para si a guarda desses bens, para assim usar o ouro e a prata a seu bel-prazer, e gerir o dinheiro, créditos e dívidas consoante a Coroa necessitasse. O grão-mestre da Ordem, Jacques de Molay, ex-banqueiro do monarca e de todos os príncipes da Europa, ardeu na fogueira, tal como muitos outros Templários. Foi assim consumada uma das mais antigas e radicais reestruturações de uma dívida pública que se conhecem. Mas é óbvio que este exemplo dum “banqueiro no churrasco” não pode - nem deve, aliás - ser seguido no século XXI…



comentário
O que não percebo

Isto é uma prevenção ou uma proposta?

Por Álvaro Aragão Athayde no Jornal i a 31 de Dezembro de 2018, às 23:22

Confesso que não percebo onde Alfredo Barroso quer chegar.

Os Templários tinham dois tesouros – o Ouro e a Sabedoria – e de nenhum deles Filipe IV de França, dito "o Belo", se apossou.

Acresce que quer a Dinastia Capetiana, quer a própria França, foram, e permanecem, malditos



Foram doze cavaleiros.




Etiqueta principal: Ideologia.
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