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10 de junho de 2021

Activei a conta no VK

 

Captura de ecrã 2021-06-10, às 07.30.59

Criei uma conta no VK – uma rede social russa semelhante à rede americana Facebook – em Setembro de 2018, no mesmo mês em criei este blogue, e pela mesma razão: o ter sido expulso do Facebook, o ter sido descriado (um nelogismo criado a partir de criado), sendo que a descriação é um homicídio virtual e um damnatio memoriae real: os Administradores do Facebook matam (virtualmente) o utilizador e destroem-lhe todo o conteúdo já publicado, conteúdo que custou ao utilizador muito tempo e muito trabalho.

Criei a conta no VK mas acabei por não a activar.

Activei-a agora.





Referências
  1. A primeira publicação neste blogue: Um blogue? Porquê?
  2. A minha conta no VK: Álvaro Athayde






Etiqueta principal: Censura.

13 de maio de 2021

O que é, hoje, “ser extremista”?

 

Afirmação Paradoxal
Antítese e Paradoxo




Na acepção filosófica e política actual “ser extremista” é “não negociar”, “não pactuar”.

Num ambiente filosófico que afirma que “é absolutamente verdade que a verdade não existe” e que “é absolutamente verdade que tudo é relativo”.

Num ambiente político que afirma que “é absolutamente verdade que tudo é negociável” e que “é absolutamente verdade que tudo é redutível a dinheiro”.

Num tal ambiente filosófico e político “não pactuar”, “não negociar”, “afirmar algo e não o desafirmar”, “tomar uma posição e não a destomar”, é “ser extremista”.

Actualmente quem não for extremista negoceia, pactua, diz-se e desdiz-se, avança e recua, vende-se, sempre na maior das calmas e com a maior cara-de-pau.

Se o não fizer não singra na vida, é acusado de ser o responsável por todos os males do mundo, é ostracizado e é perseguido.









Etiqueta principal: Extremismo.

28 de março de 2021

Mentiras e Verdades


É mais fácil enganar as pessoas do que desenganá-las.

Porquê?

Saber não sei, mas suspeito.

Suspeito, estou mesmo praticamente certo, que ter de reconhecer que fomos enganado é desagradável, desagradabilíssimo, por vezes traumatizante.

Os exemplos clássicos são dois:

  1. O do cônjuge enganado.
  2. O do conto do vigário.

Ter de reconhecer que fomos enganados afecta imenso a boa imagem que gostamos de ter dos outros e de nós próprios, o que nos leva a evitar reconhecê-lo, mesmo quando o engano é por demais evidente.

Na prática acabamos por não ter remédio senão reconhecê-lo se, e quando, os prejuízos que o engano nos causa atingem níveis inaceitáveis. Níveis inaceitáveis em termos materiais, em termos morais (ou espirituais), ou em ambos os termos. Até lá estamos em negação: Não! Não acredito!




Terraplanistas são eles

A “ciência” viu-se apropriada por devotos da virologia de veterinários, da fancaria das TVs e da hipocondria do inquilino de Belém. Isto é, por místicos que não fazem a mínima ideia do que é a ciência.

Por Alberto Gonçalves no Observador às 00:09 de 27 de  Março de 2021.

Antes da Covid, o “argumento” mais revelador da falta de argumentos e de neurónios de quem o utilizava era o da Rennie. Quando alguém confrontava um palerma com alguma coisa que lhe desagradasse, o palerma respondia imediatamente: “Toma Rennie que isso passa”, e a seguir retirava-se triunfante e seguro de que ganhara o debate. Num país cujo serviço de saúde não colapsasse à primeira oportunidade, o palerma ganharia a avaliação de uma junta de psiquiatras, mas esse é outro ponto. Aqui, o ponto é o recuso ao refluxo gástrico, vulgo azia, para encerrar uma discussão. Às vezes, o Kompensan substituía a Rennie, embora não houvesse massa encefálica que substituísse o ar morno na caixa craniana dessa gente. Bons tempos.

Em tempos de Covid, e contra todas as expectativas, o nível da “argumentação” conseguiu baixar. Hoje, a turba indistinta do “fique em casa”, do “confinamento” eterno e das máscaras permanentes é tão desprovida de razão que faz o pessoal da Rennie parecer sofisticado por comparação. O caso é particularmente irónico na medida em que, no lugar dos antiácidos, a nova estirpe de magos da retórica invoca a ciência. Ou melhor, aquilo que julga ser ciência, na verdade umas curvas estatísticas apresentadas em reuniões no Infarmed por matemáticos e veterinários desejosos de agradar ao governo. Não importa que as curvas sejam inúteis a descrever o presente e desastrosas a prever o futuro. Não importa que ninguém perceba a sensatez de trucidar uma economia débil a partir de curvas mal amanhadas. E não importa que as curvas se limitem a confirmar as conclusões previamente tomadas pelo dr. Costa e pelo prof. Marcelo: manter os cidadãos em clausura parcial, rebentar com a iniciativa privada e produzir mais dependência face ao Estado e às quadrilhas que o controlam. Importa que, na cabeça dos tontos, as curvas e as desumanas restrições que delas “decorrem” são “ciência”. E importa sobretudo que, armados com solenidade “científica”, os tontos se sentem habilitados a insultar e perseguir quem deles discorda.

Quem sugerir que o estado de emergência não é adequado para lidar com uma doença que quase só afecta gravemente velhos é “negacionista”. Quem lembrar que teria sido decente proteger os velhos, em alternativa a prender a população em peso, é “terraplanista”. Quem notar que a evolução da Covid  não depende exclusivamente de “confinamentos” e regras abstrusas é “medieval”. Quem inventariar os países e as regiões em que a falta de “confinamento” e de regras abstrusas coabita com o decréscimo nos infectados e nos mortos é “conspiracionista”. Quem insiste em conviver com familiares e amigos é “bolsonarista”. Quem repara que o Brasil tem menos mortos “com” ou “de” Covid do que Portugal é “primitivo”. Quem não respeita as normas decretadas por governantes que não se dão ao respeito – nem respeitam as próprias normas – é “fascista”. Quem questiona a prepotência é “nazi”. Quem não sai de casa sem se disfarçar de iraniana ou assaltante de bancos é “anti-social”. Quem não reduz a vastidão do universo a um vírus é “inconsciente”. Quem recorda que a existência implica sempre riscos é “criminoso”. Quem previne que esta demência colectiva terá consequências muito feias para todos, excepto para os irresponsáveis que a provocaram, é “assassino” e indigno de merecer o proverbial ventilador no dia em que precisar de um.

Estamos nisto. É, literalmente, o mundo ao contrário. De repente, a “ciência” viu-se apropriada por devotos da virologia de veterinários, da fancaria dos telejornais e da hipocondria do inquilino de Belém. Ou seja, por místicos que não fazem a mínima ideia do que é a ciência. Boa parte destes “cientistas” instantâneos até se diz de esquerda, o que os coloca logo no mesmo campeonato da credibilidade de astrólogos, cartomantes, homeopatas e cultores do Feng Shui. Muitos não sabem ler uma tabela estatística. Muitos são incapazes de alinhavar uma frase sem dois erros ortográficos e três de sintaxe. Muitos julgam que Steinmetz é um defesa do Dortmund. Mas nenhum abdica de uma ideia infantil acerca do que é ciência para fundamentar o seu dogmatismo.

Em circunstâncias normais, não custaria deixar os fanáticos a berrar sozinhos e assistir de bancada ao espectáculo. Afinal, há certa graça em ver em acção as principais características do método científico: a intolerância, a fúria e a vontade de enfiar blasfemos na cadeia ou na fogueira. A chatice é que as circunstâncias não são normais, e estes adeptos do pensamento mágico (sem a parte do pensamento) não contam apenas com a força da cegueira, que já é bastante. Para azar dos que prezam a civilização, os fanáticos contam com a força literal, a dos senhores que legislam alucinações e a da polícia que as executa. A boçalidade, enfim, tomou por completo o poder, através dos que o ocupam e através dos que os apoiam. Salvo milagre, os factos estão condenados a subjugar-se a indivíduos que enchem a boca com ciência como antes a enchiam com liberdade, embora desconheçam a primeira e detestem a segunda. Terraplanistas, negacionistas e primitivos são eles.

Original e comentários aqui.

Os comentários podem ser lidos pelos não assinantes e é extremamente instrutivo lê-los.










Etiqueta PrincipalGuerra Cultural.

21 de março de 2021

Assobia para o lado



assobia para o lado


Saúde e dinheiro para gastos, tesão

Pouco mais importa como brinda o meu amigo João

Com esse brinde eu começo uma canção

Que não prescinde uma certa reflexão


Em menos de nada, a gente já foi boy

Tenta ser o Winnie em vez de quereres ser o cowboy

Escolhe bem as tuas guerras, o que não te mada moi

Ambição é boa, mas quando cega, destrói (No doubt)


Quem te fala não sabe nada, mas vai a meio do caminho

Não vale a pena fazê-lo sozinho

De que serve a jornada se não partilhas a chegada

Bem regada com o teu vizinho


Ouve o meu conselho, se tiveres pra aí virado

Verdadeiro sucesso é amar e ser amado

Se disserem o contrário não fiques preocupado

Nã, assobia para o lado


Assobia para o lado

Assobia para o lado

Assobia para o lado


Eu só quero tar tranquilo, rodeado de algumas coisas

Que preciso para ter a minha paz

Pra quê andar atrás daquilo que não controlo

Quando na verdade o essêncial satisfaz


A maioria não está necessáriamente certa

Questiona o que te dizem, mantém-te alerta

Não tenhas medo arriscar a vida é uma oferta

Mas essa porta, não fica para sempre aberta


Não percas muito tempo a pensar no que vão dizer

Por aí, na dúvida sorri

Respeita a vontade que pulsa dentro de ti

Para viveres em pleno a passagem por aqui


Ouve o meu conselho se tiveres pra aí virado

Não precisas de luz pra te sentires realizado

Se disserem o contrário não fiques preocupado

Nã, nã, assobia para o lado


Assobia para o lado

Assobia para o lado

Assobia para o lado


Ma' nada

Assobia para o lado


Assobia para o lado

Assobia para o lado


Há sempre um mano enjoado

No caminho pra'o trabalho

No trânsito parado

Aquele tipo mal educado

Que nunca sorri ou responde

Quando é cumprimentado

Esquece!

Não te rales muito bro

Preocupa-te com aquilo

Que é realmente importante

Quanto ao resto, sabes...

Assobia para o lado

Assobia para o lado




Há nos confins da Ibéria um povo





Fontes
  1. O Tuga e o Confinamento. Old Boys Network. WhatsApp Image 2021-03-16 at 21.21.56.
  2. Carlão - Assobia Para O LadoCarlão Oficial. YouTube. 13/03/2020. 
  3. Letras - Carlão - Assobia para o Lado. Musixmatch. 16 de março de 2021.
  4. Caixa “Toma”. MRBP.CER.0375© Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa. Sem data.
  5. Há nos confins da Ibéria um povo… Citador. Sem data.






Etiqueta PrincipalGuerra Cultural.

19 de março de 2021

No politicamente correcto…

doutrinação


No políticamente correcto o Brasil está anos luz à frente de Portugal como facilmente se constata lendo o artigo de título O Marxismo cultural e a nossa violência Quotidiana, artigo de onde foi retirada a caricatura acima, artigo que foi publicado no dia 14 de Maio de 2014, já lá vão quase 7 (sete) anos.


Observatório da população em 
cargos de gestão do pensamento neutro e inclusivo
Para uma educação neutra, as identidades nacionais devem ser substituídas por uma humanidade global, fluída, indistinta, volátil, inclusiva. Bandeiras, só talvez a do arco-íris.

Por Jaime Nogueira Pinto no Observador às 06:50 de 19 de Março de 2021. Original aqui.

Em 2003, quando ainda a procissão e o milénio iam no adro, Anthony Browne, um licenciado em Matemática por Cambridge, escritor, jornalista e colaborador do Times, publicou The Retreat of Reason – Political Correctness and the Corruption of Public Debate in Modern Britain.  E a título de exemplo, começava por denunciar a cortina de silêncio com que, por puro pudor e paternalismo ideológico, a imprensa britânica tinha velado a incidência de HIV nas comunidades de migrantes africanos. E isso era só um vislumbre: a Grã-Bretanha, que “durante séculos tinha sido um farol da liberdade de pensamento, de credo e de expressão”, via agora “a sua vida intelectual e política acorrentada”, com “vastas áreas de conhecimento” excluídas do debate pelos novos moralistas.

Browne resumia depois a Longa Marcha do marxismo cultural, da escola de Frankfurt à contracultura euro-americana dos anos 60, e daí até à hegemonia académica, sobretudo nas Ciências Sociais e, mais especificamente, nos “Estudos” sectoriais, que as universidades norte-americanas irradiavam para o mundo.

E os “Estudos”, pós-coloniais, feministas, interseccionais, proto-LGBTQ+ – que, no seu melhor, começaram por ser sedutoras “paranóias de tipo interpretativo” com “a força e a estreiteza da loucura” (para usar a definição de Pessoa do “critério psicológico de Freud”), capazes de nos alertarem para realidades encobertas, de acordarem outros sentidos nas obras literárias, historiográficas ou filosóficas, de abrirem caminhos e campos de investigação e de criaram novas oportunidades de trabalho –  foram tomados de assalto por zelotas.

Aconteceu também que o zelo destes zelotas, com o seu vocabulário esotérico (tanto mais complexo, sofisticado e “científico” na forma, quanto mais oco, medíocre e manipulador no conteúdo), se foi sobrepondo a tudo o resto… E foi seduzindo fundações burguesas e governos que, quais aristocratas francesas acarinhando nos seus salões as iluminadas ideias que haviam de cortar o pescoço aos seus filhos e netos, se foram rendendo ao charme discreto dos novos “sábios dos oprimidos”.

E assim os “Estudos” cresceram e multiplicaram-se, enchendo e dominando a academia e reinando sobre todos os animais exóticos da terra. E desdobraram-se em Centros, Fóruns, Iniciativas e Observatórios, subjugando aqui, domesticando ali, preservando acolá, mas observando sempre.

E eis que, em incansável demanda por opressores e oprimidos, por macro e micro agressões, por visões alternativas e por subvenções, os zelotas que, do alto dos seus observatórios de marfim, tinham começado por promover a nova moral, passaram a perseguir os recalcitrantes – passados, presentes e futuros. Cada tique de linguagem, cada acto, palavra ou omissão, cada desvio do pensamento correcto, neutro e inclusivo, cada cisco, por mais ínfimo, no olho de um “opressor”, ou de um autor consagrado ou de uma figura histórica celebrada, era escrupulosamente observado, pesado, medido, condenado. E não se pense que os “oprimidos” conheciam melhor sorte: a eles também se exigia que não saíssem do redil e que se cingissem à identidade em que os novos moralistas os encurralavam… É que se não parassem quietos e se não se deixassem ficar oprimidos como lhes competia, se começassem a pensar e a reivindicar individualidades e especificidades, como é que queriam que os detentores da nova verdade e da nova moral os libertassem, lhes arranjassem subsídios e empregos nos Centros, Fóruns, Iniciativas e Observatórios que eles controlavam e os sustentam?

“Pensamento correcto” foi uma expressão abundantemente usada pelos partidos comunistas nos anos 20 e 30; Mao Tsé-Tung repetiu-a incessantemente nos seus escritos. Correcto, era todo o pensamento que estava de acordo com a linha do Partido ou que batia certo com as categorias históricas e sociopolíticas cientificamente estipuladas pelo Grande Timoneiro. Fora dessa correcção, não podia haver pensamento – mas não deixava de haver consequências.


Do pensamento correcto ao pensamento neutro e inclusivo

Dir-se-á que agora, com o actual “pensamento neutro e inclusivo”, que actua essencialmente no condicionamento da linguagem, não há consequências. Ou não as haverá tão imediatamente brutais e fatais. Mas não deixa de haver supressão do pensamento “incorrecto”, ou seja, inibição do pensamento. E se a nova ortodoxia parece não aspirar já a um tradicional “assalto ao poder”, é só porque a influência constante e progressiva nas mentalidades, traduzida depois em leis e regulamentos, tornou o velho “assalto” irrelevante.

Fora do discurso consentido, todo o discurso poderá facilmente ser denunciado como “discurso de ódio”, ao sabor do zelo e da criatividade dos sacerdotes do novo credo e do seu Index. Acresce que esta ortodoxia é tendencialmente elitista, acarinhando os magos e desprezando os pastores, procurando colonizar preferencialmente, por doutrinação ou pressão, as elites funcionais – ou, para usar uma linguagem mais consentânea, “a população em cargos académicos, artísticos, mediáticos e empresariais”.

Mas se a resistência vem das maiorias que o pensamento “neutro e inclusivo” discrimina, como as classes médias profissionais, as massas populares e religiosas e o grosso da população “binária”; vem também das minorias que o mesmo pensamento cristaliza.


Portugal no bom caminho

É por isso que consideram urgente domar a linguagem e explicar ao povo e às crianças o novo credo. Para uma educação neutra, as identidades nacionais devem então ser substituídas por uma humanidade global, fluída, indistinta, volátil, inclusiva. Bandeiras, só talvez a do arco-íris, devendo a História nacional ser reavaliada à luz do que foram “verdadeiramente” os “chamados Descobrimentos”: nada mais do que uma empresa comercial lucrativa, racista, esclavagista e exploradora dos povos africanos e ameríndios.

E estamos no bom caminho: temos uma investigadora que quer anexar notas pedagógicas anti-racistas aos Maias de Eça de Queiroz, um deputado que quer destruir o Padrão dos Descobrimentos, uns anónimos que acham que vandalizar a estátua do Padre António Vieira é lutar contra o racismo, e um Conselho Económico e Social que acha fundamental para a nossa economia e para a nossa sociedade que se adopte uma nova linguagem. Não restam dúvidas: entre a profunda ignorância de quem aparentemente pertence à “população com baixa visão” mas que frequentemente descobrimos como parte da “população em cargos de gestão”, estamos mesmo no bom caminho.

São tempos estranhos para a razão e para o senso comum, sob estas acometidas orwellianas, tão apartadas de qualquer visão minimamente realista da natureza humana, da criatividade humana e do pensamento e da acção humana que têm tudo para acabar mal.

Segundo o novo código de Hollywood, para que um filme se candidate aos Óscares, deverá agora ter “pelo menos um actor ou uma actriz principais de etnias sub-representadas” (asiática, hispânica, afroamericana, nativa-americana); e o elenco secundário terá de ter, “pelo menos, 30% de mulheres, LGBTQ+ ou pessoas com incapacidade”, que deverão “estar também representadas, de alguma forma, no argumento”. Enfim, perante esta sua sequela gramsciana, empalidece, acabrunhado, o realismo socialista da Rússia de Estaline (que sempre tinha Dziga Vertov e Sergei Eisenstein).

É todo um novo catecismo laico, mas promovido com fúrias de Torquemada. Aplicou-se, consciente ou inconscientemente, um princípio de desconstrução marxista, que passou da “classe social” para outras determinantes. Onde, na Vulgata, havia Burgueses e Proletários, Exploradores e Explorados, Patrões e Trabalhadores, há agora o mais fluído binómio Opressor-Oprimido – ainda que com categorias igualmente inflexíveis, de raça, de género, de comportamento social e político.

E tal como Marx, Engels, Lenine e Trotsky, que não eram propriamente proletários, adoptaram “a teoria do Partido como vanguarda da classe operária” para puderem liderar a revolução, também  os pioneiros da Correcção Política, que, na sua maioria, também não são propriamente “oprimidos de origem”, adoptam agora a teoria da vanguarda para poderem guiar e pastorear convenientemente os “novos proletários”. E assim como Marx e Engels sofriam com a adesão dos operários franceses e alemães ao bonapartismo ou ao socialismo patriótico, também os novos comissários políticos sofrem com os  trânsfugas das modernas massas “minoritárias” ou “oprimidas”  e sabem que não as podem deixar ao abandono. Têm de ser educadas e controladas. E, para isso, lá estão os capatazes, os quadros médios vigilantes, na Academia, no jornal ou na estação televisiva, prontos a seguir, por convicção, ignorância, ou dependência, a “linha geral” e correcta, a linha do Partido, e a punir os oposicionistas e os desviacionistas.

Para singrar neste mundo “neutro e inclusivo” há inúmeros filões a explorar, e as figuras e os escritores de outras épocas abrem toda uma vasta gama de apetecíveis e subsidiáveis possibilidades. E se ao ler Eça somos imediatamente confrontados com a ausência – e a necessidade, e a urgência – de notas pedagógicas anti-racistas, o mundo machista de Camilo, por exemplo, pleno de “discurso de ódio” contra “brasileiros”, de mulheres que acabam em conventos por paixões contrariadas, ou, pior ainda, que casam, têm filhos e estão contentes, afigura-se ainda mais necessitado de delações censórias. E Camões, e Gil Vicente, que riqueza para denúncias!

Lorena Germán, presidente do National Council of English Teatcher’s Comittee Against Racism and Bias in Teaching of English é um exemplo a seguir. À semelhança de Mao, que não gostava de Shakespeare ou o achava impróprio para as massas e por isso o proibiu durante a Revolução Cultural, Germán também não morre de amores pelo Bardo. Ou melhor, concede que “como qualquer outro dramaturgo” Shakespeare até terá um certo “mérito literário”, mas nada que ofusque a abjecta demonstração de “supremacia branca e colonialista” que os seus textos, e a importância que se lhes dá, exalam. E a violência, a misoginia e o racismo que descortina em Shakespeare, levam a professora a sugerir que se celebrem nas salas de aula “as vozes dos marginalizados”, até para mostrar aos estudantes “uma sociedade melhor”. Defende ainda que “é imperativo corrigir a mensagem que os educadores e os sistemas escolares dão às crianças”: Haverá uma linguagem “superior”? E qual deverá ser ela?  Quais são as histórias verdadeiramente “universais”? Que História devemos transportar para o futuro?


Cancelar Shakespeare

Shakespeare não será, evidentemente, um dos eleitos, uma das vozes a transportar para o futuro.  Até porque está longe de reunir os requisitos da nova linguagem e do novo pensamento neutro e inclusivo. É difícil encontrar um escritor onde a Humanidade, na sua grandeza e miséria, nos limites do sublime e da queda, no elenco dos sentimentos e dos sentidos, seja tão intrincada e completamente recriada – e isso, não só não é bom para as massas, como é, claramente, demais para a simplista e maniqueísta neutralização do pensamento que nos deverá guiar.

Mas haverá palavras “neutras” para falar de paixão mais inclusivas do que as que Shakespeare usou em Romeu e Julieta? Será só de “branquitude” que nos fala quando disseca os caminhos da tragédia, da ambição e do poder em Júlio César? Ou quando nos confronta com o ressentimento, a malevolência e o ciúme, em Otelo? Sim, Otelo, o “Mouro”, ou o “Negro” de Veneza, o condotiere mercenário, integrado por Desdémona, mas olhado sempre como um “cristão-novo” pelos patrícios. E a revolta das “minorias”, não estará lá na tirada defensiva de Shylock, no Mercador de Veneza, ou na sombra de Caliban, na Tempestade? Pouco importa: deixámos de precisar de Shakespeare, que só por preconceito e por imposição racista resistiu a séculos de leitura; o que o mundo e os estudantes agora precisam, o que todos nós precisamos agora, e urgentemente, é de linguagem neutra e inclusiva.

Marx era um grande leitor e admirador de Shakespeare, lia-o aos filhos e a família chamava-lhe “O Mouro”, por causa da sua obsessão por Otelo. Via em Shylock o retrato do explorador e Timon de Atenas serviu-lhe de ponto de partida para uma reflexão sobre os paradigmas do ouro e do dinheiro. Mas isso eram outros tempos, tempos opressores, em que “a cultura” era mais depressa valorizada do que cancelada, e em que o pensamento não era ainda suficientemente neutro e inclusivo.

Felizmente, e para desgosto das Lorenas Germáns deste mundo, não são só as “maiorias opressoras” que reagem… Alguns dos mais qualificados membros pensantes das “minorias oprimidas” também fogem ao espartilho imposto, resistindo ainda e sempre à neutralização do pensamento.

A grande poetiza negra americana, Maya Angelou, estava bem ciente que Shakespeare era branco, inglês e do Renascimento, mas, recordando a sua própria condição marginal na Carolina do Norte dos meados do século XX, escreveu a propósito do Soneto 29 (aquele que começa “When, in disgrace with fortune and men’s eyes / I all alone beweep my outcast state”):

Shakespeare escreveu-o para mim, esta é a condição da mulher negra. Claro, Shakespeare era uma mulher negra. Percebo-o bem. Ninguém mais o sabe, mas eu sei que Shakespeare era uma “mulher negra”.

Estamos com ela. Resistimos e vamos resistir à neutralização do pensamento. Pelas maiorias e pelas minorias.







Etiqueta Principal: Guerra Cultural.

26 de dezembro de 2020

Identidades e Poder

 


Um artigo de Nelson Faria, da Sociedade de Jesus, e um comentário meu.


Quem semeia identidades, colhe tempestades

Os interesses identitários estão a arrastar-nos para um estado de tempestade social. A necessária correção de trajetória advirá através da redescoberta do bem comum, e do restabelecer da confiança mútua.

Por P. Nelson Faria, sj em Ponto SJ a 21 de Dezembro de 2020.

Alegro-me com o momento atual de atenção generalizada à discriminação e às injustiças que assolam a nossa sociedade. Mas não resisto a franzir o sobrolho quando me encontro diante de comentários como “és homem, não entendes”, “por seres branco não compreendes”, ou ainda “se discordas és homófobo”. Naturalmente, pelo ódio e exclusão que já despoletam, perturbo-me mais quando escuto “volta para a tua terra”, “o lugar da mulher é na cozinha” ou “homossexualidade é perversão”. Contudo, creio que em todas elas encontramos um excesso de sentimento e um défice de razão.

Tem-se generalizado um tipo de discurso no espaço público em que o que releva não é a opinião, os valores e o caráter de alguém, mas sim a cor da sua pele, a sua orientação sexual, o seu género, ou a tradição religiosa a que pertence. Esta pulsão para identificar o sujeito com um coletivo é acompanhada por uma tendência em reduzir a complexidade das nossas relações em sociedade e toda a nossa história partilhada, a dois papéis sociais “todo-explicativos”: privilegiados e oprimidos. Isto é, em função do coletivo em que somos incluídos, somos opressores ou vítimas, e seremos julgados como tal.

Há uma degradação da nossa capacidade de pensar e sonhar juntos.

Abundam narrativas de vitimização em que o “nós” se restringe à “identidade de pertença”, seja ela ser homem ou mulher, ser nacional ou estrangeiro, ser branco ou negro, heterossexual ou LGBT+. Aparentemente, parece que nos esquecemos que, além das “identidades de pertença” – centradas no género, ideologia, nacionalidade, orientação sexual, ou sectarismos religiosos – existem também “comunidades de pertença” – como família, bairro, cidade, nação e, no seio da Igreja católica, paróquias. Nestas, a primeira pessoa do plural – “nós” – pode ser conjugada de forma a incluir outros que não se encontram dentro do meu campo de afinidades ideológicas, identitárias, étnicas ou religiosas.

Regresso ao ponto de partida: que da previsão constitucional que proíbe a discriminação em função da nacionalidade, sexo, raça, religião e orientação sexual, tenhamos passado a um estado de alerta social, é um grande feito e devemos louvá-lo. E muito há ainda por fazer para passar de um estado de alerta à efetiva correção das desigualdades. Contudo, na forma como debatemos, parece evidente que há uma degradação da nossa capacidade de pensar e sonhar juntos.

O semear constante dos interesses identitários no espaço público está a arrastar-nos para um estado de tempestade social em que as distintas identidades de pertença se fragmentam e se enquistam. Uma correção de trajetória é crucial, e creio que o poderemos fazer redescobrindo o bem comum e restabelecendo a confiança mútua.

Temos de ousar habitar um campo social em que outros existem, e em que o “nós” político é mais rico que os interesses da minha identidade de pertença.

Comecemos pelo bem comum. A deslocalização do centro da nossa atenção das comunidades em direção às identidades de pertença faz com que a atividade política negligencie o todo em função de fragmentos da sociedade. Este movimento de substituição tem um impacto claro na forma como analisamos a realidade: se o fragmento dita a forma como vejo o todo, o deslize em confundir “interesse de um segmento” com “interesse de todos” é previsível e, temo, inevitável.

Sendo indiscutível que há situações de injustiça que reclamam ações específicas e direcionadas, estas devem ser gizadas a partir de um pensamento que possibilite, ao mesmo tempo, a reparação da injustiça e a proposição de um caminho comum de realização pessoal e comunitário. O reconhecimento do “eu” é fundamental e deve ser preservado, mas quando sonhamos o destino dos nossos bairros, cidades, regiões e nações, quando discutimos temas como família e justiça social, temos de aprender a conjugar a primeira pessoa do plural.

Temos de ousar habitar um campo social em que outros existem, e em que o “nós” político é mais rico que os interesses da minha identidade de pertença. Devemos desejar integrar comunidades além do cluster identitário, e compreender que identidade é uma forma de fazer parte do todo. Urge que nos deixemos nortear pela vontade de construir um lugar onde talvez não estejamos de acordo em todas as matérias, mas em que possamos respeitosamente viver com o diferente, sem lhe negar dignidade nem horizonte de futuro.

Este retorcer da realidade lança-nos numa guerra de todos contra todos, pois a visão de fundo é a de que há inimigos partilhados, mas não um desiderato comum.

E isto traz-nos até ao segundo elemento da nossa correção de trajetória: o restabelecer da confiança mútua. A divisão redutora da sociedade e da nossa história a dois simples papéis – privilegiado ou oprimido – em função da nacionalidade, sexo, raça, religião e orientação sexual, torce a realidade. Dois exemplos: exigir uma distribuição da riqueza justa não nos pode levar a considerar todos os empresários como “exploradores”; que existam casos de marginalidade entre pessoas que não nasceram em Portugal, não justifica que todos os estrangeiros – ou uma nacionalidade específica – sejam apodados de criminosos. A narrativa redutora arrasta-nos inevitavelmente para o conflito.

Este retorcer da realidade lança-nos numa guerra de todos contra todos, pois a visão de fundo é a de que há inimigos partilhados, mas não um desiderato comum. O outro não deve ser o rival com quem nos digladiamos na arena, mas alguém com quem faço caminho, como numa corrida em que o pé esquerdo de um está atado ao pé direito do seguinte: só alcançaremos a meta ao pôr-nos de acordo sobre o objetivo comum e acertando passo.

Restabelecer a confiança mútua é exigente, pois implica uma conversão dos nossos hábitos de raciocínio. Há muitas razões para a rivalidade e para a suspeita, algumas delas baseadas na biografia de cada um de nós. Mas há que começar por reconhecer a nossa pertença mútua e a imprescindibilidade da colaboração. O ponto de partida não pode ser o conflito, mas a confiança.

Estabelecer relações de confiança mútua, em que se possa conjugar a primeira pessoa do plural de forma verdadeiramente inclusiva, apontando um bem comum, será tarefa inacabada, em constante devir e atualização. Sendo exigente e árduo, é também o único caminho que vale a pena seguir

Fotografia de Fares Hamouche – Unsplash

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

Original aqui.


Identidades e Poder

O título do artigo, “Quem semeia identidades, colhe tempestades”, chamou-me a atenção: um Jesuíta a pegar na questão da Política de Identidades, deixa-me cá ir ler!

Mas, confesso-o humildemente, a primeira oração “Alegro-me com o momento atual de atenção generalizada à discriminação e às injustiças que assolam a nossa sociedade.” desacorçoou-me – lá vinham as pieguices dos padrecas! – mas li o artigo todo.

Lido o artigo que se me oferece dizer?

Pareceu-me que o autor ainda não percebeu:
  1. Que a Política de Identidades é uma variação do antiquíssimo Dividir para conquistar. Dividir para reinar.
  2. Que para o grupo, ou grupos, que estão tentando tomar o poder a nível planetário o bem comum coincide com o seu próprio bem.
  3. Que o conflito que o articulista parece estar interessado em evitar não é evitável porque já está em curso, já se combate. Já se combate de armas na mão.
  4. Que orações como aquela com que abre o artigo não lhe granjeiam simpatia mas desprezo: o desprezo que os fortes têm pelos fracos.
  5. Que a Constituição da República Portuguesa não garante nada a ninguém porque quem está tentando tomar o poder a cumpre, ou a incumpre, quando lhe convém, sem punição.

Sei que é inadequado pedir a um Brâmane que pegue em armas, essa é a função dos Xátrias, mas é adequado pedir-lhe que identifique as questões e que, clara e verdadeiramente, explique o que se passa, o que está em causa.


Seja como fôr, e pesem embora as criticas que fiz, acho que valeu, e vale, muito a pena ler o artigo.




Etiqueta principal: Política de Identidades.

14 de novembro de 2020

Azul = Bom ⩒ Vermelho = Mau

 




Trocos /premium

Longe de mim qualquer convicção íntima na fraude. Desconfio só da feroz unanimidade da linguagem do Bem e não consigo escapar ao exercício contra-factual de imaginar que sucederia se fosse ao contrário

Por Paulo Tunhas no Observador ás 07:37 de 12 de Novembro de  2020. Tem comentários.

Há uns dias, estava a jantar com a minha mulher numa esplanada quando um pedinte veio ter connosco, a requerer dinheiro para uma sopa. Enquanto a minha mulher lhe dava um euro (quantia que eu reservo para o círculo restrito dos meus pedintes pessoais), expliquei-lhe (e era verdade) que só tinha moedas das pequeninas e tirei do bolso do casaco uma incómoda mão-cheia de moedinhas número 1 do Tio Patinhas, que se avizinhavam certamente, em conjunto, do euro da concorrência conjugal. Era um negócio, pensei, que convinha aos dois. Pegou nelas e afastou-se, sem agradecer, e depois parou para analisar o conteúdo da oferta, deitando para o chão da rua as de 1 e 2 cêntimos.

Eis alguém que fez a celebrada escolha da qualidade, mesmo em circunstâncias adversas. Chapeau! Ainda nos ficámos a rir com a surpresa e, depois de jantarmos, apanhámos as moedas do chão, com rigores de protestantes weberianos habitados pelo espírito do capitalismo. Maldito capitalismo, capaz de tornar uma católica e um ateu servos inconscientes de Calvino… Mas se a coisa tivesse ficado por aqui, nada de mal se teria verdadeiramente passado. O problema veio quando, sem querer, descobri que eu próprio atiro frequentemente trocos para o chão. Não exactamente trocos em cêntimos, mas trocos em ideias. Apesar de saber bem que até as mais esdrúxulas ideias contêm em si uma via, mesmo minúscula, para a verdade, há vezes em que, para evitar que os bolsos do espírito se atafulhem com uma população largamente inútil, os esvazio dos trocos que o dia-a-dia perversamente nos faz acumular. Aquilo que, na passagem do século XIX para o século XX, se chamava economia do pensamento também passa por aqui.

Dou um exemplo. Estão certamente a par do recente milagre que transformou o mundo, anunciando a magnífica vitória do Bem sobre o Mal, da luz sobre as trevas. A nossa América, a América boa, a América eterna dos nossos sonhos e das nossas promessas, venceu a falsa América, a anti-América, a América dos nossos pesadelos e das nossas frustrações. Dito de outra maneira: uma criatura da luz chamada Joe Biden derrotou nas eleições um mafarrico cujo próprio nome, Donald Trump, causa repulsa e mal-estar em qualquer um que o demo não tenha já irremediavelmente possuído com os seus fétidos miasmas. Não há boca que não cante, como cantam os anjos, a irreprimível alegria de tão gloriosa vitória do solar amanhã que nos é prometido e as palavras fluem, melodiosas: decência, bondade, união, compreensão, diversidade e todos os outros vocábulos que, ainda que aquém do êxtase propriamente dito, o anunciam como uma certeza plena e inteira.

É verdade que o mafarrico ainda estrebucha e os seus servos gostam de lembrar episódios passados que apontam no sentido de pelo menos uma modesta aceitabilidade da verosimilhança da sua doutrina sobre a possibilidade de ter existido alguma fraude eleitoral em tudo isto. Recordam, por exemplo, o facto de gente insuspeita de qualquer simpatia pelos republicanos ter há anos emitido considerações favoráveis à supressão do voto por correspondência por este poder conduzir à fraude eleitoral. Ou que, em 2016, muitos suspeitaram que a votação de Trump fora (nomeadamente no Wisconsin, no Michigan e na Pensilvânia) o resultado de manipulações do voto electrónico – isto para não falar da tese do “conluio russo”. Ou que, no passado, a mafia do Illinois havia roubado a Nixon a presidência em benefício de Kennedy. Ou que a eleição senatorial da Pensilvânia, em 1994, fora anulada por causa de fraudes maciças organizadas pela campanha do democrata William Stevenson. Aos olhos dos servos de Trump, isto deveria permitir, sem dúvida, que se apontasse que as acusações do actual presidente dos Estados Unidos são, pelo menos presentemente, insubstanciadas – mas não que se decretasse que são indesmentivelmente falsas.

A visão maniqueísta das coisas e a desconsideração da experiência passada deveria pôr-nos um bocadinho de pé atrás. Longe de mim qualquer convicção íntima na fraude. Desconfio apenas da feroz unanimidade da linguagem do Bem e não consigo escapar ao exercício contra-factual de imaginar o que diriam os democratas e os seus delegados portugueses, entre outros, se Trump tivesse vencido Biden por tão exígua margem, e à última hora, em vários swing states. Um passarinho diz-me que estariam exactamente a defender, aplaudindo, que Biden fizesse o que Trump está a fazer. Se a isto acrescentarmos a ininterrupta campanha que os democratas e a sua máquina jornalística levaram durante quatro anos a cabo contra Trump, com uma parcialidade e uma violência inauditas, a desconfiança adensa-se e o grosso do argumentário aparece muito discutível, o contrário exacto de uma evidência indesmentível.

Por mim, vou ficar muito caladinho e a pensar em coisas mais elevadas enquanto os tribunais não tiverem feito o seu trabalho. Até aí, faço como o outro e lanço os trocos – a linguagem do Bem e as certezas espúrias — para o chão. Não por especial gosto de discordar ou por ser dotado de uma natureza desconfiada, juro. Gostava imenso de experimentar a beatitude que transparece do canto dos nossos anjos, americanos ou caseiros, e de ser habitado pela irreprimível certeza que partilham. E, em vez de atirar moedas para o chão, preferia responder como uma miúda que em Paris, há muito tempo, em frente a Beaubourg, me agradeceu o cigarro que me tinha pedido: Cool! É mesmo só que não acho essa gente nada cool.

original e comentários aqui




Azul = Bom Vermelho = Mau

Os Azuis são Bons, os Vermelhos são Maus e não existem senão estas duas hipóteses de se ser: 
— Ou se é Azul, ou se é Vermelho, ou se é Bom, ou se é Mau.

Em Lógica dizemos que estamos em presença de uma Disjunção Exclusiva – ou um, ou outro, mas não ambos, nem uma terceira hipótese – em Filosofia dizemos que estamos em presença de uma Mundivisão Dualista, em Teologia que estamos em presença de uma Religião Dualista.

E é esta Mundivisão-Religião Dualista que “the powers that be” nos querem enfiar pelas goelas abaixo!

Monismo & Dualismo, publicado a 29 de Setembro de 2018.






Etiqueta principal: Fascismo Pós-moderno.

13 de junho de 2020

Antifás e Fás: Uma Receita para Dividir e Conquistar.

ANTIFA LOGOS



primeiro passo: antifás

Descobrir meia dúzia de antifás.

Se não existirem descobrir quem possa ser instruído.

Financiar essa meia dúzia e ajudá-los a criar um Movimento Antifá.

Financiar os meios de comunicação social de massa para que cubram o que Movimento Antifá diz e faz.



segundo passo: fás

Descobrir meia dúzia de fás.

Se não existirem descobrir quem possa ser instruído.

Financiar essa meia dúzia e ajudá-los a criar um Movimento Fá.

Financiar os meios de comunicação social de massa para que cubram o que Movimento Fá diz e faz.



terceiro passo: pôr antifás e fás à bulha

Descobrir uma “questão fracturante”.

Convencer os antifás de uma coisa e os fás do seu contrário, ou vice-versa.

Convencer antifás e fás de que a “questão fracturante” é fundamental e de que eles têm de se bater por ela.

Dar assistência financeira e técnica aos antifás e ao Movimento Antifá.

Dar assistência financeira e técnica aos fás e ao Movimento Fá.

Dar assistência financeira e técnica aos meios de comunicação social de massa  para que cubram as acções dos antifás, dos fás e dos seus Movimentos.






Etiqueta principal: Fascismo Pós-Moderno.
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6 de novembro de 2019

Morenas e Morenos

Recanto das Letras
 > Textos > Poesias > Quadras > Morena Linda dos Lábios de Mel!



CLARO QUE NÃO !!!

Todos iguais, normalizados, como as porcas e os parafusos?

E já agora…

As porcas também seriam normalizadas, ficariam iguais aos parafusos?

Imaginem só o tédio que não seria!





Etiqueta principal: Racismo.
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19 de outubro de 2019

“Weaponizing History” ou “Da História como Arma”

Um dos relevos internos do Arco de Tito, em Roma, mostrando a Menorá do Templo de Herodes I, o Idumeo, em Jerusalém, destruído no ano 70.
Ao que dizem essa Menorá terá sido vista pela última vez na Toledo Visigótica, não se sabendo se foi derretida, se foi enterrada, se foi arrebatada, como Elias o foi.


A história foi transformada numa arma (history has been weaponized), arma que é usada para conquistar mentes, não para conquistar terras.

Mas a conquista de terras continua a ser o objectivo último a atingir, o que mudou foi o método usado para alcançar esse objectivo último.

Se se conquistarem, ou confundirem, as mentes dos que povoam as terras a serem conquistadas é possível:
  • Conseguir que os mesmos se submetam voluntariamente.
  • Conseguir que os mesmos fiquem tão confusos, tão divididos, tão animicamente derrotados, que sejam incapazes de reagir a um ataque.

De que estão, sempre estiveram, do lado errado da história?

E há melhor método do que convencê-los de que são um lixo histórico?

Junto dois artigos sobre o tema.



Washington as a Farmer at Mount Vernon(Primary Title). Junius Brutus Stearns, American, 1810 - 1885 (Artist). Date: 1851.

Weaponizing History

By readerjohn at War Correspondence ن on August 26, 2019

[H]istory is increasingly employed as a simple bludgeon, which picks its targets mechanically—often based on little more than a popular cliché—and strikes.
The best example may be the evergreen argumentum ad Hitlerum … The detention centers on America’s southern border should be called “concentration camps,” according to Rep. Alexandria Ocasio-Cortez. When questioned, the young, irrepressible Democrat advised Americans: “This is an opportunity for us to talk about how we learn from our history.” But that history isn’t ours. By invoking such an emotionally laden term, she was playing on a potent theme, but in a way that underscored the limited range of her historical reference, as well as the public’s.
A more disturbing example is the pell-mell rush to pass judgment against heroes of the past and tear down or rename the monuments to them … Are we really so faint of heart that we can no longer bear to allow the honoring of great men of the past who fail in some respects to meet our current specifications?
… [T]he transformation of history into a weapon depends upon a brutal simplification of the historical record. Such is the approach of the New York Times’s audacious “1619 Project,” which argues “that nearly everything that has made America exceptional grew out of slavery.”
The weaponizing of history corresponds invariably with a remarkable hostility to history. Its practitioners are content to slice a single fact out of a web of details, then repeat that fact with the stubbornness of protesters who have memorized a chant.
… Once history becomes a club, it quickly loses its credibility as history. The grossly exaggerated claims of the Times’s “1619 Project” are likely to bring on just such discredit.
… Our task is to recover the humane insight of Herbert Butterfield, who taught that the historian should be a “recording angel” rather than a “hanging judge”—let alone a summary executioner.

Wilfred M. McClay, The Weaponization of History.

Although McClay’s examples are from the Left, this is a game anyone can play, and we have been. Mark Bauerlein of First Things (which has been making high-stakes wagers with its credibility lately), for instance, very recently interviewed the old-but-still-irrepressible David Horowitz, who flung around “communist” with reckless abandon and referred to Dostoyevsy in The Brothers Karamazov writing a “damning portrait of the Roman Church” and its indulgences.

Entropy lives! (And kills.)



Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal's Colonial Empire.
Witney W. Schneidman. University Press Of America (2004).

Salazar e a lobotomia dos povos

E não é possível continuar a tratar hoje sociedades inteiras, para mais envelhecidas, como se se tratasse de um bando infantil, irresponsável, incapaz de pensar por si mesmo.

Por Gabriel Mithá Ribeiro no Observador a 19 de Outubro de 2019

Não existe dignidade humana sem memória, tal como não existe consciência sem memória. Ambas sustentam a moral e, em particular, a moral social, isto é, os princípios que orientam e regulam a vida quotidiana sem os quais as sociedades não são viáveis.
Todavia, antes de tudo o resto está o pressuposto de a memória apenas ser verdadeiramente humana quando é ambivalente e complexa e, para que assim seja, as sociedades devem permitir e incentivar o alargamento dos campos de significação, o inverso do afunilamento da memória em determinados núcleos ou determinados sentidos impostos por tutelas políticas, culturais, religiosas, institucionais.
Os que protegem os indivíduos de se auto confrontarem com a complexidade e ambivalência das suas memórias individuais ou coletivas – por exemplo, impondo que se preserve apenas a dimensão negativa das memórias de um dado ciclo histórico e interditando a dimensão contrária, ou o inverso – podem propalar a sua luta no caminho da virtude, porém o que estará em causa é um caso em que o manifesto (o acidente) contraria o latente (a substância), o doublespeak magistralmente tipificado por George Orwell.
Esse doublespeak é o instrumento que impõe, pela sua natureza, formas agressivas de violência contra a dignidade mais elementar da condição humana, uma vez que fica apenas admitida meia-memória, meia-consciência, meio-ser humano. É quase só a isso que fica reduzida a condenação da existência, em Portugal, de um Museu de Salazar ou a imposição de condicionamentos apriorísticos, sempre pela esquerda, dos conteúdos de um Museu Interpretativo do Estado Novo.
Tal violência psicológica imposta por uma elite circunscrita a toda uma sociedade, ou conjunto de sociedades, fica ainda mais ostensiva num contexto em que o Parlamento Europeu, no passado dia 19 de setembro, equiparou o comunismo ao nazismo. Ainda que tal condenação chegue com décadas de atraso, ela força a que se repense o lugar histórico do Estado Novo na identidade portuguesa, ou na identidade dos povos do antigo império ultramarino.
Que se saiba, não existem suportes teóricos, conceptuais ou evidências históricas que alguma vez possam equiparar Salazar e o seu regime a Hitler e ao nazismo, ou a Estaline e ao comunismo, e foi sobretudo o comunismo o alvo da repressão política durante o salazarismo. Isso é bem mais do que um mero detalhe, trata-se de matéria substantiva.
Jamais estará em causa o branqueamento de uma indiscutível ditadura e da sua violência, a de Salazar, todavia isso é tão importante quanto a necessidade de recusar a falsificação da natureza dessa mesma ditadura, atitude que se arrasta desde 1974, assim como importa recusar a sua desinserção do contexto histórico do avanço do comunismo.
Se os resistentes comunistas foram inegáveis vítimas do regime, a situação não difere do sofrimento de milhões de indivíduos comuns que, em África e em Portugal, se viram arrastados na enxurrada de uma descolonização para a qual não foram consultados. Até agora, as mortes e as perdas irreparáveis (morais e materiais) dos últimos continuam a ser tratadas como lixo humano escondido debaixo do tapete.
Essa tipologia de relação patológica com o passado histórico prolonga no presente consequências sociais desumanas.
Veja-se como académicos, escritores, músicos, artistas, políticos, entre outros da elite de esquerda há décadas impõem ao senso comum, de forma obsessiva e por diversas vias, olhares que obliteram certas dimensões da memória social. Do alto do seu narcisismo, as mentes tutelares de esquerda determinam que aquela época histórica é boa, aquela outra é má; naquele período histórico só permitimos que se procure o negativo, mas naquele outro só admitimos a preservação da memória do que foi positivo; este ditador e a sua violência são legítimos, porém aquele ditador e a sua violência têm de ser diabolizados.
Tal gestão da memória social e, portanto, da condição humana torna impossível a racionalização dessa mesma memória social, o que impede a maturidade moral, intelectual e identitária das sociedades por elas mesmas. É o que acontece a qualquer indivíduo a quem os que o tutelam inibem ou interditam a liberdade da sua relação íntima com as suas próprias memórias. Na matéria, não existe descontinuidade entre o indivíduo e o coletivo, isto é, o caminho para o desequilíbrio mental é substantivamente o mesmo.
Salvo raríssimas exceções, sabemos que a vida vivida torna impossível dissociar o favorável do desfavorável, sendo que um e outro se explicam entre si no seu próprio contexto. Não podemos exigir o mesmo amor ao próximo como a si mesmo a um padre na sua paróquia de todos os dias e a um militar em situação de confronto armado. É por isso que truncar um dos extremos da memória coloca em causa a capacidade do sujeito (individual ou coletivo) de lidar de forma saudável com a sua própria consciência.
E não é possível continuar a tratar hoje sociedades inteiras, para mais envelhecidas, como se se tratasse de um bando infantil, irresponsável, incapaz de pensar por si mesmo.
Dada a relevância do Estado Novo (1926/1933-1974) para a identidade atual dos portugueses ou, no mesmo ciclo histórico, da colonização portuguesa para os povos africanos saídos do antigo império, truncar o lado positivo desse legado histórico para impor no presente a fixação do olhar no lado negativo constitui não apenas a imposição do desvio funcional depressivo da memória, como ainda um atropelo grosseiro à mais elementar dignidade humana.
A propósito, Carlos Amaral Dias, psicanalista português, escreveu: «[Wilfred] Bion [psicanalista britânico] diz que um paciente chega a análise com seis factos [problemas], cada um com uma versão, e está verdadeiramente em análise no momento em que passa a ter seis versões para cada facto – expandiu o campo da significação» (Freud para além de Freud, 2000, p.147). Ou seja, a sanidade mental da espécie é tanto mais reforçada quanto mais as sociedades expandem os campos de significação que atribuem ao seu passado, o que no exemplo aqui equacionado remete para o Estado Novo incluindo a colonização portuguesa em África.
Assim sendo, por que carga d’água um eventual Museu de Salazar tem de estar centrado em aspetos negativos da sua época, inegáveis, mas que, como qualquer época, nunca se resumiu a tal dimensão. É fácil antecipar que os iluminados que impõem essa representação do passado imporão, no futuro, que um eventual Museu da III República Portuguesa (iniciada em 1974) tenha de ser centrado em aspetos positivos inegáveis, porém os negativos também o são. Guerras civis devastadoras deixadas na África pós-colonial, três bancarrotas, mortes por incúria do estado e dos seus governantes, degradação das instituições (justiça, ensino, família, segurança, obras públicas, entre outras) – nada disso existiu na atual III República? É por isso que vamos denegrir a época histórica da democracia?
Portugal é apenas uma variante, no Ocidente, de um programa progressista-esquerdista de eugenia da memória social, a versão cultural da lobotomia que deveria integrar, tal como a lobotomia neurocirúrgica, o cardápio de crimes contra a integridade mental (e física) do ser humano.
Não temos todos a obrigação moral e cívica de recusar este destino ou, no mínimo, de o questionarmos?

Fontes
  1. Arco de Tito”. Wikipédia, a enciclopédia livre. Esta página foi editada pela última vez às 00h57min de 23 de março de 2019. Recuperada às 18h14min de 19 de outubro de 2019.
  2. The Weaponization of History”. Wilfred M. McClay. Wall Street Journal. Published on August 26, 2019. Retrieved on October 19, 2019.
  3. Weaponizing History”. readerjohn. War Correspondence ن. Published on August 26, 2019. Retrieved on October 19, 2019.
  4. Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal's Colonial Empire. Witney W. Schneidman. University Press Of America (January 29, 2004). ISBN-13: 978-0761828129. Retrieved on October 19, 2019.
  5. Salazar e a lobotomia dos povos”. Gabriel Mithá Ribeiro. Observador. Publicado a 19 de Outubro de 2019, às 00:14. Recuperado a 19 de Outubro de 2019, às 22:21.

Etiqueta principal: Weaponizing History.
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