Daniel Cohn-Bendit Caudilho estudantil durante a agitação de Maio de 1968 na França. Hoje Co-Presidente do grupo "Verdes Europeus"-"Aliança Livre Europeia" no Parlamento Europeu.
CONTRATO
Artigo 1.º — Podem fornicar à vontade.
Artigo 2.º — Não podem questionar o Capitalismo.
Artigo 3.º — Não podem questionar a Democracia Liberal.
Muitos jovens, então entre os 13 e os 23 anos, hoje adultos, velhos, entre os 65 e os 75 anos, franceses, portugueses, de muitas e variadas outras nacionalidades, assinaram o contrato com o maior dos entusiasmos mas, há que o notar, e que o frisar, os Artigos 2.º e 3.º estavam em letras muito, muito, desmaiadas.
RESULTADO
Uma sociedade ateia, hedonista, em vias de extinção, que vive aterrorizada com o teísmo de “uns” e o estoicismo de “outros”, “uns” e “outros” esses que, já o compreenderam, vão matar quantos antes se não suicidarem, ou se fizerem eutanasiar…
Fontes
"Daniel Cohn-Bendit". Discogs. Sem data de publicação. Recuperada às 15:47 de 04 de Março de 2020.
A empresária angolana Isabel dos Santos. Fotografia: Eneias Rodrigues / LUSA.
Dois artigos de opinião.
O um publicado no português Observador, o outro no angolano Folha 8.
Hienas caçando, e comendo uma Pacaça.
Vida Selvagem - Reino Selvagem.
Ainda há por aí mais heróis para baterem numa mulher no tapete?
Se compreendo que faça a sua defesa com os meios a que tem direito, com uma argumentação digna da mulher inteligente que é, o que me choca e decepciona é que se tenha afirmado vítima de... racismo!
Por Guilherme Valente no Observador às 00:27 de 08 Fevereiro 2020.
“I am a poor lonesome cowboy” Lucky Luke
Frágil e velho, eu que nunca vi a Senhora em causa de um mundo onde nunca entraria, num país aonde nunca irei e em que só não me indigna e me preocupa a imensa gente pobre, boa e explorada que lá sofre e sobrevive, eu, digo que Isabel dos Santos não é só monstro, seja lá o que de condenável e chocante tenha feito.
Entre os vários irmãos a quem caíram no regaço os milhões de que se fala, foi ela a única que criou milhares de empregos também em Portugal, para inúmeros portugueses. O que não teria precisado de fazer para gozar e tentar estoirar essa fortuna toda.
Milhões que alguns aqui debicaram, de que toda a gente sabia a origem, mas que raríssimos tiveram a dignidade e a coragem de sempre revelar.
E de que outra maneira num regime revolucionário, anti-colonialista e anti-capitalista, como o de Angola poderia ter sido conseguida a acumulação que lhe permitiu esses investimentos? Corrupção, corrupção organizada, apoiada e consentida pelo Estado. Num nível só possível quando não há separação de poderes, quando os tiranos e a sua clique mandam na Justiça, e em tudo. Modelo e regimes aberrantemente cantados, aliás, na Assembleia da nossa livre, tolerante, República democrática-liberal.
Pelo que leio e ouço, também eu não posso deixar de fazer o meu juízo sobre as peripécias em que a Engenheira Isabel dos Santos surge envolvida. Mas seja qual for esse juízo não esqueço o que de combate sujo pelo poder haverá misturado nisso tudo. Nesse mundo onde nada garante que de repente uns tenham passado a ser melhores do que os outros. E Isabel dos Santos, quiçá, até poderá ter sido ou vir a ser melhor.
E esse juízo que faço não pode apagar também a apreciação pessoal, as visíveis capacidades de inteligência, espírito empreendedor, liderança, que muitos seguramente lhe invejaram e invejam. E noutro plano, a elegância, o charme dela…sou sensível a isso.
Pelo contrário, se compreendo que faça a sua defesa com os meios a que tem direito e pode dispor, com uma argumentação digna da mulher inteligente que é, o que me choca e decepciona é que se tenha afirmado, disseram-me, vítima de… racismo!
Racismo? Uma mulher que foi e ainda será modelo de sucesso para tantas mulheres — e homens — de todas as cores?!
E os empresários e governantes aqui merecidamente encharcados por rios de notícias sobre as suspeitas fundamentadas ou as condenações mais humilhantes? Brancos, Engenheira Isabel dos Santos, sem a sua — quanto a mim, anémico extremo ocidental — belíssima cor de pele. Feia, muito feia, é a única cor de pele e de carácter que vejo neles.
Uma mulher com o seu estatuto e história não pode querer confundir-se com os que inventam racismos, os que exploram a vitimização e a miséria que aprisiona tantos africanos num absurdo complexo, contribuindo para que se mantenham em guetos de exclusão. (De que cumpre, aliás, ao Estado democrático liberal, aos Governos, ao empenho dos homens de boa vontade ajudá-los a sair.)
Vitimização que tem ajudado ditadores e regimes ignóbeis a manter a generalidade da África na dependência e na pobreza. Projectando sobre o outro, o “branco”, hoje cada vez mais inventado, o que é responsabilidade dos africanos, antes de mais dos tiranos que os dominam. Tudo em nome das tretas revolucionárias, socialistas, anti-colonialistas e anti-capitalistas que se sabe.
Deixe a exploração repugnante da vitimização e invenção de racismos para os negros e os brancos (que assim aqui são mais) que lucram ou pensam vir a lucrar com esse negócio sujo, que ameaça o verdadeiro combate que é imperativo travar contra todas as formas de discriminação.
A Senhora Engenheira é uma mulher cosmopolita, adulada por todos com quem quis conviver no mundo. Mundo que teve aos seus pés (até em Davos), e que se a Senhora tivesse dado outro destino a esses biliões até a poderia justamente admirar.
Racismo?! Não se coloque ao nível de Joacine Katar Moreira, que idêntica à Senhora só tem, vagamente, a cor de pele.
Repare o que puder reparar e… caia de pé, igual a qualidades que vi em si. Seja lá o que for de imperdoável em que tenha incorrido.
Repare o que puder reparar e… caia de pé, igual a qualidades que vi em si. Seja lá o que for de imperdoável em que tenha incorrido.
Alemanha vai ajudar a pôr o Reino (e África) em ordem
O Presidente de Angola, também Presidente do partido no Poder desde 1975 (o MPLA) e Titular do Poder Executivo, João Lourenço, desafiou hoje a Alemanha a investir nos sectores dos transportes, energia e agricultura, entre outros, sublinhando que existe agora um ambiente favorável ao sector privado.
Por Redacção F8 no Folha 8 a 07 Fevereiro 2020.
Falando após uma reunião com a chanceler alemã, Angela Merkel, que cumpre hoje uma visita de algumas horas a Angola, João Lourenço focou o interesse recíproco dos dois países no sentido de intensificar as relações empresariais e económicas.
“Angola ao longo destes anos tem beneficiado de linhas de crédito da banca comercial alemã para projectos de infra-estruturas públicas, mas quase nenhum investimento privado de destaque, o que pretendemos hoje, uma vez que estamos a criar com algum sucesso um ambiente de negócios favorável ao investimento privado”, salientou João Lourenço.
O chefe de Estado destacou ainda algumas preferências, que vão ao encontro das capacidades do sector industrial alemão, como a siderurgia e o aço, a agricultura e pecuária, a ciência e a saúde, o sector automóvel e o turismo.
João Lourenço indicou que durante a visita da chanceler alemã vão ser apresentadas várias iniciativas que visam ampliar o quadro de cooperação bilateral entre os dois países na área da capacitação e formação de quadros.
O aprofundamento da relação com instituições bancárias para financiamento de projectos de gás, energia e águas, parcerias público-privadas para estradas, ferrovias e portos, centrais hidroeléctricas e apoio à vigilância marítima, sobretudo no Golfo da Guiné, são outras áreas a explorar.
Por seu turno, Angela Merkel assinalou que a Alemanha quer dar a sua contribuição para o desenvolvimento de Angola e pretende contribuir com a sua presença para iniciar um novo capítulo da cooperação entre os dois países que se traduzirá na assinatura de acordos concretos.
Trata-se da segunda visita da chanceler Angela Merkel a Angola, tendo a primeira ocorrido em 2011, ocasião em que foi acordado com José Eduardo dos Santos uma parceria alargada entre os dois países.
João Lourenço visitou a Alemanha em Agosto de 2018 e voltou a encontrar-se com a chanceler Merkel em Nova Iorque, no mês de Setembro.
Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores angolano, Manuel Augusto, referiu que a Alemanha é já um “parceiro tradicional” de Angola, onde tem instaladas um “conjunto de empresas que têm um impacto directo” na economia angolana e nas condições de vida da população.
Ninjas biométricos, milho e Alemanha
O Governo do MPLA determinou a entrada em funcionamento, no reino de que é proprietário (Angola), dos Conselhos e Vigilância Comunitários (CVC), previstos na lei desde 2016, para auxiliar os órgãos de defesa e segurança no combate e prevenção da criminalidade. Na verdade, importa reconhecer, os CVC serão uma espécie de “ninjas biométricos” que também vão ajudar o milho a crescer e os laranjais a florescer.
Analisando a proposta, um verdeiro Ovo de Colombo – segundo MPLA, verifica-se que o Presidente João Lourenço tinha toda a razão quando, no dia 22 de Agosto de 2018, disse numa conferência de imprensa conjunta com a chanceler alemã Angela Merkel, em Berlim, que queria atrair investimento alemão na área da Defesa, na “vigilância e segurança marítima”. Nesse dia, o Folha 8 perguntou: Que outra prioridade poderiam os angolanos querer? Isto porque investir na Defesa faz crescer o… milho!
Na verdade, João Lourenço – com a sua única e divina capacidade de antecipação – já sabia que os CVC iriam ser fundamentais para essa campanha agrícola que nos levará para o paraíso da auto-suficiência alimentar.
O chefe de Estado sublinhou na altura a “necessidade de atrair investimento privado alemão para praticamente todos os domínios da economia”. Mas deu destaque à área da defesa, revelando que Angola tem “uma costa marítima bastante extensa” que é preciso “cuidar”. E quem melhor do que os “ninjas biométricos” para cuidar dessa vertente da segurança? Sim, quem?
“Um país que se desenvolve e descura da sua defesa, não age de forma correcta”, reconheceu o ex-ministro da… Defesa, hoje Presidente da República, certamente convicto que a razão da força é bem mas decisiva do que a força da razão dos nossos 20 milhões de pobres. Pobres que, contudo, vão ser estimulados pelos CVC a serem mais assertivos na sua luta diária para aprenderem a viver sem… comer.
“Estamos a convidar os investidores alemães a trabalhar com o estado de Angola (leia-se MPLA) na protecção da nossa costa, com o fornecimento de embarcações de guerra, tal como de outros meios eléctricos, para podermos controlar melhor esta vasta fronteira marítima que é uma parte do Golfo da Guiné, uma parte que é cobiçada pelos piratas, pelos terroristas como forma de atingir os nossos países, de atingir as nossas populações, as nossas economias”, recordou o chefe do Estado do MPLA.
Na conferência de imprensa conjunta, Angela Merkel confirmou o “interesse de Angola em cooperar com a Alemanha no domínio da defesa”, acrescentando a chanceler que há muito interesse em que “a costa angolana seja segura”, porque “não existe desenvolvimento sem segurança, nem segurança sem desenvolvimento”. O Folha 8 “sabe” que já nessa altura Merkel foi informada por João Lourenço sobre o grande trunfo da sua governação: a implementação dos Conselhos e Vigilância Comunitários.
Por isso Merkel garantiu que a Alemanha tem disponibilidade em cooperar desde que exista interesse por parte das empresas, congratulando-se com o “novo vento” que sopra de Angola.
João Lourenço, que visitava pela primeira vez a Alemanha desde que foi (digamos) eleito, assegurou ter gostado muito do “ambiente das negociações” que manteve com a chanceler, convidando Angela Merkel a visitar Angola, em 2019.
Questionado sobre a visita que logo a seguir iria fazer a Pequim, e uma eventual cooperação militar com a China, o chefe de Estado angolano declarou que “os laços de amizade e cooperação são sempre diversificados e quantos mais amigos, mais parceiros, melhor”.
Em 2009, o antigo chefe de Estado de Angola e patrono de João Lourenço, José Eduardo dos Santos, esteve na Alemanha e, em retribuição, a chanceler alemã, Angela Merkel, visitou Angola em 2011.
Presidente, general e ministro (da Defesa) dos “ninjas”
Recorde-se, por exemplo, que em Fevereiro de 2015 as marinhas da Alemanha e de Angola realizam, ao largo de Luanda, um exercício naval conjunto que marcou o alargamento das relações entre os dois países à cooperação militar, já então com os “ninjas biométricos” em fase de quase gestação.
O exercício decorreu da presença em Angola de quatro navios da Marinha alemã, nomeadamente três fragatas de guerra, no âmbito da Força Operacional e de Formação 2015 daquele país europeu, visando o combate à pirataria.
De acordo com o anúncio feito a bordo da fragata ‘Hessen’ – que estava atracada no porto de Luanda -, pelo capitão-de-mar-e-guerra Andreas Seidl, que liderava esta força, o exercício constou de uma abordagem das forças navais angolanas a um dos navios da frota da Alemanha, tendo lugar a duas milhas da costa.
“A visita desta força da Alemanha pode ser vista como o primeiro passo visível na intensificação da cooperação militar entre as nossas duas nações”, sublinhou Andreas Seidl.
O oficial esclareceu que a cooperação entre as marinhas de ambos os países estava na altura centrada na formação de operacionais angolanos (já com uma vertente embrionária dos Conselhos e Vigilância Comunitários), mas que era intenção das duas partes alargar a base desse entendimento à cooperação na área técnica.
A inclusão de Angola na rota dos navios alemães seguiu-se à visita, em Novembro de 2014, do ministro da Defesa angolano, o general João Lourenço, à Alemanha, ocasião em que foi assinado um acordo de cooperação de Defesa entre os dois países.
Na apresentação dos meios navais em Luanda, o embaixador alemão em Angola, Rainer Müller, assumiu “o orgulho” da Alemanha em ter Angola “agora também como parceiro na área da Defesa”. E se já havia esse orgulho antes da existência dos CVC, o que dizer agora?
“Angola é um parceiro muito poderoso e influente em África e que tem uma bela história para contar”, afirmou Rainer Müller. Na altura – diga-se de passagem – José Eduardo dos Santos ainda não tinha passado de bestial a besta. E não tinha porque, pura e simplesmente, era quem estava no Poder.
Em cima da mesa, entre outros aspectos, esteve o envio de conselheiros técnicos das Forças Armadas alemãs para assistir as forças angolanas.
“Cabe aos ministérios da Defesa dos dois países decidir, mas a Alemanha está disposta a fazer muita coisa”, enfatizou o embaixador da Alemanha em Luanda.
A missão operativa, com incursão pelo mar do norte, oceano Atlântico, Golfo da Guiné, Cabo Esperança, oceano Índico e do Canal de Suez para o mar Mediterrâneo, tinha como objectivo a formação do núcleo de participação alemã nos grupos de intervenção internacionais, no âmbito de tarefas marítimas.
Contudo, o comandante desta força descartou acções de envolvimento directo pela Marinha alemã no combate à pirataria, sendo a prioridade a capacitação das marinhas dos países afectados.
Mapa diacrónico do Reino dos Francos (em latim: Regnum Francorum), de 481 a 843.
O meu problema com a União Europeia não tem a ver com nem Ursula von der Leyen, nem com Angela Merkel, nem com qualquer outro que para lá vá ou lá tenha estado, o meu problema com a União Europeiatem a ver com a própria União Europeia.
Estados fundadores da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), embrião das futuras Comunidade Económica Europeia (CEE) e União Europeia (UE). Na época, em 1952, a Argélia era parte do território da Quarta República Francesa.
Só que, em minha opinião, a metodologia que funcionou na Alemanha no século XIX não tem a menor hipótese de funcionar na Europa no século XXI.
Em minha opinião a metodologia funcionou na Alemanha no século XIX porque, pese embora as suas diferenças e particularismos, que os têm, os Alemães eram uma Nação. Tinham uma Língua Comum, uma História Comum, uma Cultura Comum e viam-se a si próprios como uma Nação, a Nação Alemã.
Ainda em minha opinião a dita metodologia não tem a menor hipótese de funcionar na Europa no século XXI porque, chegue ou não a Europa aos Urais, os Europeus não são uma Nação. Não têm uma Língua Comum, uma História Comum, uma Cultura Comum, não se vêm a si próprios como uma Nação, a Nação Europeia.
Portanto, e sempre em minha opinião, uma Associação Europeia de Comércio Livre é um tipo de organização com hipótese de funcionar e de ser vantajosa para todos os participantes, uma União Aduaneira Europeia, ou uma União Europeia, não.
Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo
Sei bem que nos tempos que correm falar de Língua, de História, de Cultura, de Nação, é algo que costuma dar direito a sermos expeditamente etiquetados de “direitistas”, de “reaccionários”, de “fascistas” por vezes, mas o facto é que, conforme escreveu George Santayana: “Progress, far from consisting in change, depends on retentiveness. When change is absolute there remains no being to improve and no direction is set for possible improvement: and when experience is not retained, as among savages, infancy is perpetual. Those who cannot remember the past are condemned to repeat it.”
“Reino Franco”. Wikipédia, a enciclopédia livre. Esta página foi editada pela última vez às 23h02min de 1 de maio de 2019. Recuperada às 06h02min de 26 de julho de 2019.
“União Europeia”. Wikipédia, a enciclopédia livre. Esta página foi editada pela última vez às 00h19min de 17 de julho de 2019. Recuperada às 06h39min de 26 de julho de 2019.
“Zollverein”. Wikipédia, a enciclopédia livre. Esta página foi editada pela última vez às 12h08min de 21 de agosto de 2018. Recuperada às 07h26min de 26 de julho de 2019.
“George Santayana”. Wikiquote, the free quote compendium. This page was last edited on 9 June 2019, at 23:01. Retrieved on 26 July 2019, at 07:56.
Um artigo de Alfredo Barroso e um comentário de Álvaro Aragão Athayde.
artigo
Filipe o Belo e a reestruturação da dívida
Na manhã de 13 de Outubro de 1307, o Rei de França tomou para si a guarda dos bens da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo. O grão-mestre da Ordem, ex-banqueiro do monarca e de todos os príncipes da Europa, ardeu na fogueira. Foi uma das mais radicais reestruturações de sempre de uma dívida pública
Por Alfredo Barroso no Jornal i a 31 de Dezembro de 2018
No que respeita a finanças públicas, os portugueses, além de tementes a Deus (que não sabia nada de finanças), são ainda hoje dominados pelos fantasmas de Salazar, Cavaco, Gaspar e Centeno. Continuam a pensar que a deferência que o Estado deve ter pelos seus credores decorre duma obrigação moral e dum sentido da honra que devem prevalecer sobre os compromissos contraídos pelo Estado perante os cidadãos em matérias tão cruciais como o direito ao trabalho, à habitação, à saúde, à educação, à segurança social, à justiça, à cultura, à liberdade. Para os portugueses em geral, e para os políticos em especial, é mais importante cumprir o descomunal “serviço da dívida” do que os compromissos que o Estado assume de acordo com a Constituição, ainda que haja cidadãos no desemprego ou a sofrer nos hospitais, nas escolas ou nas empresas. O lema é: antes forretas do que gastadores. Nada de viver acima das suas possibilidades - tal só se admite aos ricos, que têm outras “possibilidades”.
Ora bem, a dívida pública atormenta-nos a todos, não é assim?! Ainda mais do que a dívida privada, mesmo se esta for bem maior do que a pública! Mas em vez de estar aqui a especular, prefiro lembrar uma história antiquíssima, que só a esta distância é que é divertida, e que não deve servir-nos de exemplo, sob pena de atraiçoarmos os fantasmas que mencionei no início deste texto. Para que ninguém me interprete mal, começo por recorrer aos conhecimentos de Carmen Reinhart e Kennet Rogoff, antigo economista-chefe do FMI, quando nos informam que, “entre 1500 e 1800, a França repudiou as suas dívidas em oito ocasiões”, e avisam: “Como os reis de França tinham por hábito mandar matar os grandes credores nacionais, o povo acabou por chamar “sangrias” a esses episódios”. Reconheça-se, aqui, uma das mais antigas e radicais formas de reestruturação da dívida pública de que há memória.
Decidi, porém, recuar no tempo mais ainda do que aquele célebre par de economistas e fazer uma breve incursão pelo reinado de Filipe IV (1268-1314), rei de França, de cognome “o Belo”, filho de Filipe III (1245-1285) e, sobretudo, neto do santo rei Luís IX (1214-1270), mais conhecido como São Luís. Ora, Filipe o Belo ascendeu ao trono quando o Reino de França estava à beira da falência, dado que, segundo uma regra característica do regime feudal, “o rei de França só pode viver do que é seu”. Isto é, não tinha o direito de lançar impostos em todo o país, sob pena dos seus vassalos, sobretudo os senhores feudais, se rebelarem e tentarem derrubá-lo do trono. Ora, os rendimentos da Coroa, certamente suficientes para mandar cantar os cegos, estavam longe de poder assegurar a fidelidade dos barões (cujas mordomias eram altas), ainda menos de poder honrar o cumprimento das alianças com Estados estrangeiros e de sustentar as indispensáveis guarnições militares, além das centenas de familiares da nobreza que iam aumentando a Corte e tinham de viver à custa dela. Pior ainda: não chegavam para financiar inevitáveis guerras, que custavam os olhos da cara.
Que fazer, então?, ter-se-á interrogado Filipe o Belo, que não tinha ao dispor nada que se pareça com os ensinamentos de Marx, Lenine e Milton Friedman. Pois bem, Filipe o Belo decidiu desvalorizar a sua moeda, pondo a funcionar a maquineta para cunhá-la e colocando menos prata e menos ouro em cada peça. O que lhe valeu ser “cunhado” por Dante como “Filipe o Belo, o moedeiro falso”. Mas foi graças à desvalorização da moeda que as rendas, as dívidas, os juros e os censos (feudais), que eram fixos e, por isso, não acompanhavam a inflação, diminuíram significativamente. Terá ficado o Rei ao abrigo das revoltas camponesas, mas quem não apreciou mesmo nada a decisão régia foram os grandes proprietários, os senhores feudais e o clero, clamando que o monarca estava a arruiná-los. O Rei fez orelhas moucas enquanto pôde mas, um sério conflito com o Papa Bonifácio VIII (1235-1303) fez com que ele precisasse do apoio, pelo menos político, dos senhores feudais e do clero, que desde logo exigiram, como contrapartida, o regresso à moeda forte do tempo do bondoso Rei Luís IX.
Claro que Filipe IV lhes fez a vontade. Já então a opção por uma política monetária era uma opção de classe. E as rendas triplicaram. Todavia, os operários, os pequenos comerciantes e artesãos de Paris aliaram-se e revoltaram-se, no dia 30 de Dezembro de 1306. O alvo que escolheram em primeiro lugar foi a casa de um burguês, Estienne Barbette, grande proprietário, conselheiro do Rei e guia deste em matéria de política financeira. Destruído todo o recheio dessa casa, os revoltosos dirigiram-se ao Templo (construído pela Ordem dos Templários em 1240), no qual se tinha refugiado Filipe o Belo. Reunido o seu Conselho, o Rei decidiu que as rendas seriam pagas pela antiga taxa, cedendo às exigências do povo. Mas a vitória popular teve um preço: 28 dos revoltosos, entre eles os três líderes da sublevação, foram enforcados em ulmeiros junto às quatro entradas de Paris. Entretanto, para compensar o enforcamento dos populares, o Rei abriu uma caça aos ricos (curioso equilibrista, este monarca!). É que ele precisava mesmo de dinheiro e de ouro. Tendo já obrigado as classes possidentes - senhores feudais, clero e burguesia - a entregar à Coroa um terço das suas loiças mais valiosas, cujo fabrico foi proibido, expulsou de França os Lombardos, agiotas e mercadores, confiscando os seus bens. A seguir decidiu expulsar os Judeus, em 1306, depois de apreender os seus móveis, as suas casas, o seu dinheiro, os seus créditos, tudo confiscado em benefício da Coroa, com os cofres quase a abarrotar.
O grande golpe, todavia, foi desferido contra a riquíssima e mui poderosa Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, no ano de 1307. Os Templários foram presos, acusados de cuspir na cruz, de renegar três vezes Deus, e de praticar a sodomia, o que escandalizou sumamente um monarca tão “piedoso” (ainda que não o pareça) como Filipe o Belo. A verdade é que os antigos “combatentes de vanguarda” das cruzadas tinham-se tornado, entretanto, em “banqueiros do Ocidente”, operando duma ponta à outra do Mediterrâneo, e da Europa a Jerusalém, graças à segurança e rapidez com que transferiam fundos, melhor do que as companhias italianas rivais. Por isso tinha o Rei de França confiado o seu Tesouro ao Templo, contraindo empréstimos junto dessa Ordem dos “soldados de Deus”, que se tornara rica, mesmo “demasiado rica”, com grandes domínios, terras cultivadas, mercados e portagens. Um verdadeiro “Estado dentro do Estado”, que apenas prestava contas perante o Papa.
Essa a razão que levou Filipe o Belo a vibrar-lhe, de surpresa, na manhã do dia 13 de Outubro de 1307, o golpe fatal. Espantados, os “pobres” Templários não resistiram, nem tiveram tempo para fugir com os seus tesouros ou para exportar os seus metais preciosos. O Rei optou por não confiscar os bens da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo, por pertencerem à Igreja, mas tomou para si a guarda desses bens, para assim usar o ouro e a prata a seu bel-prazer, e gerir o dinheiro, créditos e dívidas consoante a Coroa necessitasse. O grão-mestre da Ordem, Jacques de Molay, ex-banqueiro do monarca e de todos os príncipes da Europa, ardeu na fogueira, tal como muitos outros Templários. Foi assim consumada uma das mais antigas e radicais reestruturações de uma dívida pública que se conhecem. Mas é óbvio que este exemplo dum “banqueiro no churrasco” não pode - nem deve, aliás - ser seguido no século XXI…
comentário
O que não percebo
Isto é uma prevenção ou uma proposta?
Por Álvaro Aragão Athayde no Jornal i a 31 de Dezembro de 2018, às 23:22
Confesso que não percebo onde Alfredo Barroso quer chegar.
Os Templários tinham dois tesouros – o Ouro e a Sabedoria – e de nenhum deles Filipe IV de França, dito "o Belo", se apossou.
Acresce que quer a Dinastia Capetiana, quer a própria França, foram, e permanecem, malditos
Sans-culottes en armes, guache de Jean-Baptiste Lesueur, 1793-1794, museu Carnavalet.
Sans-culotte foi a denominação dada pelos aristocratas aos artesãos, trabalhadores e até pequenos proprietários participantes da Revolução Francesa, principalmente em Paris.
Livremente traduzido da língua francesa como “sem calção”, o culote era uma espécie de calções justos que se apertavam na altura dos joelhos, vestimenta típica da nobreza naquele país à época da Revolução. Em seu lugar, os “sans-culottes” vestiam uma calça comprida de algodão grosseiro, traje tipicamente utilizado pelos burgueses. Estes eram, normalmente, os líderes das manifestações nas ruas.
— em Sans-culottes, um verbete da Wikipédia, a enciclopédia livre.
A Classe Governante Francesa… como a Nova Aristocracia Francesa! E os Coletes Amarelos… como o Novos Sem Calção! Uma abordagem interessante a estes eventos surpreendentes e aparentemente estranhos!!!
O Governo Parou de Ouvir as Pessoas há 20 anos
A exploração inteligente, pelas elites, de ficções politicamente corretas, tem encantado a Esquerda comatosa e acrítica, mas não aqueles que vêem seus padrões de vida em queda livre.
Um membro da família que morou décadas em França resumiu a fonte dos protestos gilets jaunes numa frase: “O governo parou de ouvir as pessoas há 20 anos”. Seria difícil negar a seguinte generalização dessa afirmação: muitos, se não a maioria, dos governos pararam de ouvir o seu povo décadas atrás, preferindo ouvir em seu lugar as elites financeiras e políticas e, também, as entrincheiradas elites culturais, que encaram o povo com desdém.
Legiões de comentadores estão-se debruçando sobre as origens económicas e culturais do destempero da França. Muitos caracterizaram os protestos como operários, em termos gerais da responsabilidade das multidões que viram erodir-se o poder de compra dos seus salários, ou pensões, enquanto as elites financeira, política e cultural, da França se banquetearam com os magros ganhos que a economia francesa registrou nos passados 20 anos.
Os manifestantes acertadamente percebem que são politicamente invisíveis: a classe governante, independentemente de seu pendor ideológico, não crê necessitar do apoio dos politicamente invisíveis para governar como bem entende. A classe governante tem, além disso, contado com as elites culturais para marginalizar e suprimir os politicamente invisíveis, descartando qualquer dissensão das classes inferiores como racista, fascista, nacionalista e quqlquer outra palavra propositadamente escolhida para votar a dissidência ao ostracismo.
As elites culturais contavam com que a incessante apresentação dos desacordos das classes inferiores como populismo racista-fascista continuariam marginalizando os plebeus, mas o cântaro partiu a asa: as classes marginalizadas financeira, política e culturalmente estão fartas.
Somos felizes como servos explorados porque a nossa Aristocracia usa frases politicamente correctas em público.
Apesar das brigas habituais entre facções, a classe dominante há muito tempo está unida por trás de uma simples ferramenta de controle: comprar cumplicidade com benesses do governo. Se a divergência se transformar num movimento amplo, a solução é comprar os manifestantes com algum novo subsídio ou benefício.
Esta é uma das dinâmicas essenciais do Neofeudalismo que são:
Penúria-por-dívida e lealdade dos escravos-assalariados à Nova Aristocracia que possui a dívida.
A aristocracia financeira-e-política maximiza o seu benefício e justifica a exploração com a concessão de garantias directas aos servos-da-dívida politicamente impotentes, servos-da-dívida aos quais esta predação sistémica magicamente oferece a melhor saída possível do campesinato.
Os benefícios do Estado são usados como suborno para comprar a cumplicidade e a passividade dos escravos-assalariados servos-da.dívida.
A Nova Aristocracia propõe ficções politicamente politicamente corretas para justificar a sua exploração e predação.
Agora que esta estratégia não conseguiu silenciar os gilets jaunes (coletes amarelos), a classe governante da França apercebeu-se de que a situação é mesmo séria. E como todos sabemos, a classe governante segue, em todos os lugares, este ditado: quando fica sério, há que mentir.
As mentiras são agora contínuas, daí a explosão da preocupação da elite com as fake news (notícias falsas). A faísca que acendeu o estopim dos actuais protestos era uma mentira, é claro; O imposto sobre o combustível não tinha como objetivo “salvar o planeta”, mas sim aumentar as receitas para que as elites pudessem continuar a extrair o seu benefício sem pôr em risco a ordem económica.
A exploração inteligente, pelas elites, de ficções politicamente corretas, tem encantado a Esquerda comatosa e acrítica, mas não aqueles que vêem seus padrões de vida em queda livre.
Inside Alcatraz Prison – row of bars and cells. leezsnow / Getty Images
A propósito da Crise dos Coletes Amarelos veio-me à mente Noção de Violência Estrutural.
Avenue de la Grande Armée, les #Giletsjaunes sont pris en étau entre les forces de l’ordre qui les empêchent de monter vers Etoile et de redescendre vers Porte Maillot. France Bleu Paris tweet
E veio-me á mente Noção de Violência Estrutural porque me pareceu evidente que as pessoas estavam presas. Presas na Estrutura, no Sistema, não em Alcatraz, mas presas.
Mas, perguntarão: O que é a Violência Estrutural?
Cito em Inglês, traduzo depois para Portugês:
Structural violence refers to any scenario in which a social structure perpetuates inequity, thus causing preventable suffering. When studying structural violence, we examine the ways that social structures (economic, political, medical, and legal systems) can have a disproportionately negative impact on particular groups and communities.
Violência estrutural refere-se a qualquer cenário no qual uma estrutura social perpetua iniquidade, assim causando assim sofrimento evitável. Ao estudar a violência estrutural, examinamos as formas pelas quais as estruturas sociais (sistemas económicos, políticos, médicos e legais) podem ter um impacto desproporcionadamente negativo em determinados grupos e comunidades.
Os meios de comunicação social têm tornado muito claro ·que a Crise dos Coletes Amarelos é, por um lado uma Revolta Fiscal (Tax Revolt em Inglês): A população considera – e as estatísticas oficiais parecem confirmá-lo – que os impostos sobem, os rendimentos descem e o que lhes sobra após a exacção fiscal é cada vez menos. E, por outro lado, uma Revolta da Periferia: A população que ser revoltou parece ter sido a da periferia geográfica, ou económica, que consideram que as medidas que têm vindo a ser tomadas têm um impacto desproporcionadamente negativo sobre as suas vidas.
Alianças militares europeias em 1910. A Tríplice Entente em verde escuro e a Tríplice Aliança em verde oliva.
Muito embora embora a Propaganda de Guerra da Tríplice Entente nos tenha tentado convencer do contrário na Alemanha de 14-18 viviam homens e mulheres normais. Homens e mulheres que, como os homens e mulheres da Tríplice Entente, comiam, bebiam, cantavam, dançavam. Por isso fui em busca de canções e imagens da Alemanha dessa época.
Germania auf der Wacht am Rhein (Germânia Vigiando o Reno), Gemälde von Lorenz Clasen, 1860.
O próximo e último vídeo, a canção Was ist des Deutschen Vaterland? (Qual é a Pátria dos Alemães?), é uma Canção Patriótica Alemã, cuja letra foi escrita em 1813 por Ernst Moritz Arndt, um poeta patriota, ou nacionalista, como preferirem.
Note-se que o Sacro Império Romano-Germânico cessou de existir a 6 de Agosto de 1806 – data da abdicação do último imperador, Francisco II, que imperou de 5 de Julho de 1792 a 6 de Agosto de 1806, abdicação que decorreu da sua derrota na Batalha de Austerlitz (a 2 de Dezembro de 1805) – e que entre essa data e 19 de Outubro de 1813 – data da vitória da Sexta Coligação na Batalha da Nações - os Estados Alemães estiveram ocupados, submetidos, ou fortemente ameaçados, pela França.
A letra é muito curiosa porque é o programa da Unificação e Reunificação da Alemanha, programa que, pese embora a perca de alguns dos territórios mencionados por Ernst Moritz Arndt, os Alemães concluíram no dia 3 de Outubro de 1990.