Páginas

12 de outubro de 2020

Andreia Montenegro (Ana Loureiro)





Contada por Ana Loureiro, o rosto da petição pública para a Legalização e Regulamentação da Prostituição em Portugal, meio no qual é também conhecida por Andreia Montenegro, esta é a história de uma mulher que encontrou na profissão mais velha do mundo o caminho para a sua sobrevivência e a dos seus filhos.

Oriunda de uma família lisboeta de classe média, Ana viveu uma infância e adolescência marcadas pela violência física e psicológica. Após uma tentativa de suicídio, foi acolhida por instituições do Estado, onde conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos – e que, tal como sucedera com os seus pais, não a pouparia a maus-tratos.

Nestas páginas, conta-nos como chegou à prostituição, como despertou para um universo de segredos, cumplicidades e perversões que desconhecia em absoluto e como se habituou a um trabalho que, de início, lhe provocou a mais profunda repulsa, ou não tivesse sido um padre o seu primeiro cliente.

Cru, genuíno, corajoso e direto, este livro põe a descoberto um meio em que o perigo, a incerteza e o absurdo estão sempre ao virar da esquina, obrigando-nos também a refletir sobre a necessidade de regulamentar uma profissão que permanece na sombra da clandestinidade.



Andreia Montenegro, a julgar pela sua história que neste livro conta, não foi, nem é, uma Acompanhante de Luxo, foi, e é, uma Mulher de Armas e uma Sacerdotisa do Amor. Foi em tempos, uma menina numa Casa da Mariquinhas, é, actualmente, uma Mariquinhas nas suas próprias casas.





O que a autora conta, a situação que descreve, não me surpreendeu minimamente. Nasci em Julho de 1947 e desde cerca de 1960, desde os meu 12, 13, anos que, ouvindo “coisas”, vendo “coisas”, lendo “coisas”, tenho vindo a construir um modelo mental da situação, modelo desse que, nas suas grandes linhas, coincide com quanto é descrito.

Nas suas grandes linhas, friso, não fazia ideia do que era «fazer praças» nem de que, como «praças», Aveiro era má e Braga boa.

Acresce que, sendo do sexo masculino e vivendo no ambiente dos Clientes das Mariquinhas, não no das próprias Mariquinhas, via a situação de um outro ponto de vista, um ponto de vista em que mais importantes do que as Mariquinhas, ou os Clientes das Mariquinhas, eram as Esposas, Filhas e Filhos, dos Clientes das Mariquinhas.

Quanto à questão da Regulamentação da Prostituição, questão que, suponho, terá sido o que levou Ana Loureiro a expor-se como se expõe, acho que ela está cheia de razão e que a actividade deve ser regulamentada.

O mercado de trabalho da prostituição – feminina ou masculina – é um mercado de trabalho dinamizado pela procura, não pela oferta. Enquanto houver homens e mulheres que queiram, e possam, pagar os favores sexuais de outrem haverá quem, por uma razão ou por outra, esteja na disposição de prestar esses mesmos favores sexuais. 

Que os favores sexuais sejam prestados na borda de uma estrada, na cabine de uma viatura, na casa de banho de um centro comercial, no saguão de um prédio, num quarto – de bordel, de hotel, de residência –, na cama de dormir da, ou do, cliente, é irrelevante, o que é relevante é que uma das partes compra os favores sexuais que a outra parte lhe presta, favores sexuais esses que a outra parte lhe não prestaria se não fosse remunerada. E o valor da remuneração é, pela mesma razão, irrelevante. Nuns casos será baixo, ou baixíssimo, noutros razoável, noutros elevado, ou elevadíssimo, dependerá de imensas coisas.

O Projecto-Lei de Regulamentação da Prostituição em Portugal proposto pela autora nas páginas finais deste seu livro resolve todas as questões que se prendem com  Prostituição em Portugal?

É evidente que não!

Não resolve, por exemplo, as questões que se prendem os que casam por dinheiro mas, parece-me, resolve, ou contribui para a resolução, de muitos dos problemas das Casas das Mariquinhas, das próprias Mariquinhas e, espero bem, contribuirá para desincentivar fortemente a prostituição juvenil feminina, a prostituição das moças entre entre os quatorze e os vinte e um anos.






Etiqueta principal: Regulamentação da Prostituição em Portugal.

10 de outubro de 2020

Covidices

 

O Trio da Hora de Almoço.



as melhores frases durante, ou sobre, a crise pandémica

— edição revista e aumentada —
old boys network
08.10.20


“Há baixíssima probabilidade de vírus em Portugal. A OMS está a exagerar um bocadinho.”

— Graça Freitas 


“Apelo para que visitem os lares: sejam solidários.”

— Graça Freitas 


“Não usem máscaras. As máscaras dão falsa sensação de segurança.”

— Graça Freitas 


“Testes? Testes negativos dão falsa sensação de segurança.”

— Graça Freitas 


“Esta semana chegam 500 ventiladores. Outros tantos após a Páscoa.”

— Lacerda Sales 


“Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?”

— Ferro Rodrigues 


“Não é necessário usar máscara. A AR é um edifício grande.”

— Graça Freitas 


“Admito a possibilidade de celebração do 13 de Maio.”

— Marta Temido 


“Já tenho um esquema para ir à praia.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“Senhor Presidente, isso não é permitido.”

— Elemento da segurança de Marcelo Rebelo de Sousa 


“Não vai haver austeridade.”

— António Costa 


“Tracei as linhas gerais para um plano a 10 anos em 2 dias.”

— António Costa e Silva 


“Comigo ninguém falou sobre qualquer plano.”

— Mário Centeno 


“Nos aviões não é necessário distanciamento porque as pessoas só olham para a frente.”

— Graça Freitas 


“A realização da fase final da Champions em Lisboa é um prémio para os profissionais de saúde.”

— António Costa 


“O que nós queremos é que venham muitos estrangeiros.”

— Graça Freitas 


“Que bom que foi poder ver o Algarve sem as filas e as enchentes de sempre.”

— António Costa 


“A pandemia pode ser uma oportunidade para a agricultura portuguesa.”

— Maria do Céu Albuquerque 


“Que cada um de nós recorra à horta de um amigo. Não açambarquem.”

— Graça Freitas 


“Admitimos retaliar contra países que impedem entrada de portugueses.”

— Augusto Santos Silva 


“Aparecem mais casos porque estamos a testar mais.”

— António Costa 


“A Câmara Municipal de Arcos de Valdevez (CMAV), como forma de proteger as crianças que regressaram esta segunda-feira ao jardim de infância, criou um dispositivo que ajuda a manter sempre o distanciamento social. A solução surgiu sob a forma de um chapéu com quatro hélices.”

— CMAV 


“A Junta de Freguesia de São Martinho do Porto (JFSMP) levou a cabo uma acção de desinfecção do areal da praia com um tractor e uma solução que continha hipoclorito, no início de Maio.”

JFSMP 


“Vá, dentro do elevador cada um virado para o seu lado.”

— Graça Freitas 


“Até agora não faltou nada no SNS e não é previsível que venha a faltar.”

— António Costa 


“É muito difícil fazer previsões quando o mundo mudou 360 graus em dois meses”

— António Costa 


“População menos educada e mais pobre poderá estar a potenciar uma maior incidência da epidemia no norte.”

— TVI 


“Existe, de facto, um produto muito eficaz, um produto que mata todos os micro-organismos e, portanto, bactérias e vírus, e que consegue durante um mês essa mesma segurança. Há uma película que é formada em torno das superfícies onde ele for aplicado.”

— Matos Fernandes


“Estou aqui sem nenhuma proteção porque tenho a certeza que nem a Cristina nem nenhum dos adjuntos que estão aqui, que aliás são muitos, não representam qualquer tipo de problema para a minha saúde. Sei disso olhando para eles.”

— Francisco George


“Por que é que aquilo só afecta os chineses?”

— Cristina Ferreira 


“Se isto é um milagre, o milagre chama-se Portugal.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“Não é patriótico atacar agora o governo.”

— Rui Rio 


“Confinamento é para manter diga a Constituição o que diga.”

— António Costa 


“Nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém. Isto vos diz e vos garante o Presidente da República.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“É menos perigoso do que a gripe.”

— Jorge Torgal 


“Vai ficar tudo bem.”

— Sem autor atribuído 


“Quero felicitar o Senhor Presidente da República neste 4º aniversário da sua tomada de posse, com votos de que o ano que agora se inicia seja assinalado pelo mesmo nível de sucesso, aproveitando para o congratular pelos resultados negativos no teste efetuado.”

— António Costa 


“As Câmaras Municipais do Porto (CMP) e de Vila Nova de Gaia (CMVNG) informam que a noite de São João se comemora a 23 de Junho, ontem."

— CMP/CMVNG 


“Cerca sanitária no Porto? Neste momento, e provavelmente hoje será tomada uma decisão nesse sentido, a ser equacionada entre a autoridade de saúde regional e nacional e o Ministério da Saúde, obviamente.”

— Graça Freitas

 

“É mentira, é mentira.”

— António Costa 


“Se o primeiro-ministro puxou as orelhas à ministra teria certamente razão.”

— Marta Temido 


“A falsa frágil como as orquídeas que ama.”

— Fernanda Câncio 


“Existe nas últimas semanas uma ligeira subida numa tendência que é de estabilização da descida.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“No se trata de Lisboa, sino de algunos barrios de municipios vecinos. No existe ninguna relación con el centro de la ciudad de Lisboa donde se celebrará la Champions.”

— António Costa 


“O antibiótico é para combater o vírus.”

— António Costa 


“Temos uma enorme dificuldade em pronunciar o nome das pessoas, uma enorme dificuldade em comunicar.”

— Rui Portugal 


“Ir assim para a rua mamar copos sem máscara sem nada, hum…, não é boa ideia.”

— Marta Temido

 

“As vacas não deixaram de existir e a poluição baixou.”

— Maria do Céu Albuquerque 


“Um dia será o Reino Unido a precisar de quem agora está em baixo.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“Com maus chefes e pouco exército não conseguimos ganhar esta guerra.”

— Fernando Medina 


“Ministério da Saúde não se pode deixar capturar pela crítica fácil e pela má-língua.”

— Marta Temido 


“Pandemia pode ser oportunidade para resolver problemas no acesso à habitação em Lisboa.”

— Fernando Medina 


“A questão do Estado de Direito não deve ser relacionada com as negociações sobre o plano de recuperação.”

— António Costa 


“Nós não estamos aqui para festas de anos de ninguém.”

— Mark Rutte

 

“O ponto mais crítico da contração económica já ficou para trás.”

— Siza Vieira

 

“Vamos beber o drink de fim de tarde.”

— Graça Fonseca 


“A melhor forma de dar a volta a esta crise é o crescimento económico.”

— Siza Vieira 


“O meu objetivo não é apurar a responsabilidade de surtos nos lares.”

— Ana Mendes Godinho 


“Não o li, mas a Ordem dos Médicos fez-me chegar o relatório e já pedi que o analisassem.”

— Ana Mendes Godinho 


“É fácil ficar no nosso consultório e passar o dia a falar por videoconferência para as televisões.”

— António Costa 


“É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram.”

— António Costa 


“O Senhor Primeiro-ministro não reproduziu integralmente e fielmente aquilo que minutos antes tinha reconhecido à Ordem dos Médicos.”

— Ordem dos Médicos 


“Diga aos portugueses para votarem noutro Governo.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“Nunca pensei que chegássemos a cinco dias da Festa do Avante sem conhecer as regras do jogo.”

— Marcelo Rebelo de Sousa 


“O encerramento das escolas não se devem ao facto de as escolas serem um local de contaminação mas pelo contrário a escola deve-se ao facto de a escola ser um local de contacto ser um local que favorece naturalmente a contaminação.”

— António Costa 


“A escola, em si, não transmite o vírus.”

— António Costa 


“O estudo do Instituto de Saúde Pública do Porto concluiu que não existe ligação direta entre as infeções da COVID-19 e utilização do transporte ferroviário na Área Metropolitana de Lisboa.”

— Pedro Nuno Santos


“É altura de deixarmos de pôr o país nas bocas do mundo, dizendo que a informação não é boa. Isso até nem é patriótico.”

— Graça Freitas


“Uma vez que estive na reunião do Conselho de Estado a aplicação STAYAWAY COVID devia-me ter alertado. E não alertou.”

— Rui Rio


“De acordo com estudo preliminar, o excesso de mortes em 2020 poderá dever-se à temperatura elevada.”

— António Costa










Etiqueta principal: Humor Negro.

5 de outubro de 2020

Estado Novo: A história como nunca foi contada | vol. 1





Estado Novo: A história como nunca foi contada

Volume primeiro

Salazar: A queda de uma cadeira que não existia


Página 289

E em Fevereiro de 52, o secretário de Estado dos EUA, Dean Acheson, no regresso de uma visita a S. Bento, opinará: «Não restam dúvidas de que se trata do governo de um só homem, e de que não há lá outro homem como ele. O mais provável é que se Salazar morrer, ou perder os seus poderes, Portugal volte à confusão de onde ele o arrancou.»

E assim foi realmente…


Graças a Deus que José António Saraiva é anti-Salazar, como o pai, não pró-Salazar, como o tio, se o não fosse correria o risco de ser acusado de estar fazendo o panegírico de Salazar!



OBRIGATÓRIO LER




Fontes





Etiqueta principal: História de Portugal.

23 de setembro de 2020

Castelhanos e Portugueses


 

Os Castelhanos são Quixotes

Investem contra os gigantes e contra os moinhos, que não distinguem lá muito bem uns dos outros.


Os Portugueses são Panças

Deitam-se à sombra dos moinhos esperando que os gigantes também se deitem para, com pouco esforço, os decapitarem.



Imagem em




Etiqueta principal: Natureza dos Povos.

19 de setembro de 2020

A Questão Colonial: Um prolegómeno.

Um mapa que é todo um programa: “Portugal não é um país pequeno”.
Estava em todas as escolas do país.
E fora organizado por Henrique Galvão, que mais tarde se tornaria um temível opositor de Salazar (porquê?).


Muito se debateu e se debate, em Portugal e no seu Império, ou Antigo Império, ou CPLP, a Questão Colonial, ou a Questão do Ultramar, como preferirem, e eu gostaria de colocar uma questão, uma questão preliminar:

O Além-Mar, as Colónias, o Ultramar, 
como preferirem, 
faziam, ou não, parte integrante da Pátria?

Norton de Matos e Salazar achavam que sim. Cunha Leal e Marcello Caetano achavam que não. 


Os primeiros, como achavam que sim, achavam que era tão traição à pátria, abandonar, vender, trocar, Goa, quando o seria abandonar, vender, trocar, o Algarve. 


Os segundos, como achavam que não, estavam abertos à hipótese de abandonar, vender, trocar, Goa, mas não à de abandonar, vender, trocar, o Algarve.


Esta é a questão preliminar que coloco:

Parece-me que existiram, e existem, duas concepções de Portugal.

Para uns Portugal era, e é, só o Rectângulo Ibérico. Um território actualmente designado por Continente, mas que já foi designado por Metrópole e por Reino.

Para outros Portugal era, e é, esse mesmo Rectângulo e muito mais.

Esta questão decorre:
  • Da leitura, ainda não terminada, dos dois livros que José António Saraiva recentemente publicou.
  • Da leitura, já terminada, de um ensaio publicado por Vasco Pulido Valente em 2003. 
  • Da constatação de que ascensão da China, do Irão, da Rússia, e a descensão dos Estados Unidos da América e da União Europeia, colocaram em causa os pressupostos em que se baseou a fundação da actual Terceira Republica Portuguesa.





Fonte (da imagem) e Referências

  1. “A guerra colonial na grande estratégia de Salazar”. Fernando Martins. Observador. Publicado a 05 de Outubro de 2014, às 14:12.
  2. Marcello Caetano : as desventuras da razão. Vasco Pulido Valente. Gótica. Publicado em Novembro de 2002.
  3. Salazar - A Queda de uma Cadeira que Não Existia. José António Saraiva. Gradiva. Publicado em Junho de 2020.
  4. Salazar e Caetano - O Tempo em Que Ambos Acreditavam Chefiar o Governo. José António Saraiva. Gradiva. Publicado em Agosto de 2020.







Etiqueta principal: Questão Colonial.

18 de setembro de 2020

A camisa-de-onze-varas

ACORDAI
Música: Fernando Lopes-Graça
Letra: José Gomes Ferreira


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!




Andando eu a arrumar livros e papéis encontrei, descobri, um texto de que já me não lembrava, um texto que escrevi e publiquei  em 2012, já lá vão 8 (oito) anos. 

Rascunhei-o nos dias 28 e 29 de Abril – versão v.0, manuscripta, terminada às 04:25 de 28, versão v.1, computatuscripta, terminada à 15:43 do mesmo dia, versão v.2, computatuscripta, terminada às 02:20 de 29 –, finalizei-o na Véspera de São João – versão v.2.F, computatuscripta, a final, a que disponibilizei na Dropbox, terminada, às 21:35 de 23 de Junho de 2012 – e publiquei-o nessa mesma noite no Facebook, no meu perfil Álvaro Aragão Athayde. A que horas o publiquei não sei precisar porque o Facebook me descriou esse perfil (Um blogue? Porquê?).




Acordai!


Nós, portugueses, estamos metidos numa camisa-de-onze-varas…

Creio bem que já não há quem afirme o contrário!

E, estando-o, a nossa preocupação fundamental é, deverá ser, como é que vamos sair desta?

Como vamos nós portugueses superar esta tão badalada crise?

A primeira e fundamental questão é pois, em minha opinião, a questão de saber se queremos realmente superar a crise e, querendo-o, em que termos o queremos fazer.

Ou seja, a questão fundamental é O QUE É QUE NÓS QUEREMOS?

Eu, por mim, pessoal e familiarmente falando, quero sobreviver, continuando a ser quem sou.

Portanto, e concretizando:
  • Quero continuar a viver, quero continuar a falar português, quero continuar a poder comer joaquinzinhos e a beber vinho verde, quero continuar a dançar a chula e a cantar o fado, a dizer piropos e a fumar Definitivos, a afirmar que Camões é o máximo mas que Vieira não lhe fica atrás, a ler, no original, Herculano, Eça, Castro Alves, Jorge Amado, a declamar Bocage, Pessoa, Gedeão.
  • E quero ter filhos, netos e bisnetos que sigam nesta mesma linha.

Simples e consensual dir-me-ão...

Infelizmente não!

E não porque entre nós há quem não queira sobreviver, os suicidas, e quem queira sobreviver mas mudando de cultura, os arrependidos.

Os suicidas não se afirmam, infelizmente, como suicidas. Os suicidas defendem e realizam,
em nome de grandes princípios, politicas que desencorajam, ou impedem, a natural reprodução humana. E fazem-no, fundamentalmente, desencorajando ou impedindo as mulheres de terem filhos.

Notem que eu não tenho nada contra a libertação da mulher, nem contra a igualdade de género, tenho, isso sim, contra a utilização destas bandeiras com o objectivo de reduzir a natalidade e, por essa via, promover a extinção do grupo.

Se não houver filhos não há netos e, como todos envelhecemos e acabamos por morrer, o não haver filhos nem netos acarreta que iremos diminuindo, diminuindo, e, quando morrer o último, acaba-se.

Morreu o bicho, acabou a peçonha!

Os arrependidos, que também não se afirmam como arrependidos, defendem e realizam, igualmente em nome de altíssimos ideais, políticas culturais que têm em vista, por um lado, desencorajar ou impedir as manifestações que no seu entender são retrógradas ou impróprias e, por outro, encorajar e realizar as que consideram correctas e progressistas.

Quem se não lembra do que aconteceu com o fado nos idos do PREC?

O fado foi oficialmente declarado, pelos autodenominados progressistas, como sendo uma manifestação fascista!

Era a teoria dos três efes: Fado, Fátima e Futebol. As três manifestações máximas do fascismo. As três a serem proscritas, perseguidas, eliminadas para todo o sempre.

Tudo para o bem e o progresso do povo.

Hoje, como é sabido, o fado foi proposto a Património da Humanidade, o futebol é motivo de orgulho nacional e Fátima lá continua...

Os arrependidos também nos costumam brindar com largas laudas ao progresso, ao desenvolvimento, à necessidade de imitarmos o que de verdadeiramente extraordinário se faz nos países que consideram desenvolvidos e progressistas.

Notem que, como no caso anterior, nada tenho nada contra o desenvolvimento, nem contra o progresso. Mas, também como no caso anterior, sou contra facto de estas bandeiras serem usadas para nos levar a macaquear outros países, e a importar, de forma mais ou menos acrítica, toda e qualquer novidade, supostamente extraordinária, que por lá surja!

Recusando eu o partido dos portugueses suicidas e também o partido dos portugueses arrependidos, declaro-me, oficialmente, aqui e agora, militante do partido dos portugueses entusiastas.

Eu quero ser português! Eu gosto de ser português!

Eu quero comer carne de porco à alentejana, beber cartaxol, dançar o vira, cantar o Zeca, declamar a Natália, ler o Mia Couto!

O meu partido é, como diria um certo militante do Partido Comunista Português, o partido do nosso povo!

Bom, já estou a ver muito camarada com os cabelos em pé!

E estão-no porque, supostamente, o meu discurso é um discurso direitista, ultranacionalista, fascista mesmo...

A esses camaradas só lhes digo uma palavra: ACORDAI !

Fernando Lopes-Graça
Acordai!

Acordai e olhai em volta.

O desenvolvimento, o internacionalismo, o futuro, o progresso, já não passam por Milão, por Viena, por Paris, ou por Berlim. Há anos que já não passam...

O desenvolvimento, o internacionalismo, o futuro, o progresso, passam hoje por Brasília, Moscovo, Deli, Pequim, Pretória.

Passam, ainda, por Washington, Tóquio, Londres e suas filhas, ou irmãs: Camberra, Otava, Wellington.

Passarão, dentro de não muito tempo, por Bogotá, Caracas, Luanda, Maputo, México, Teerão.

O Mundo mudou... A Europa já era!

E a isso acresce que a Europa está novamente em guerra intestina. Alemanha, França, Itália disputam-se o comando do efémero Império do bárbaro Carlos Magno.

As Espanhas em geral, Portugal em particular, nunca integraram tal império. Estávamos, à época, em outro campeonato. E em outro campeonato estivemos até há muito pouco tempo.

A Grã-Bretanha também nunca integrou o bárbaro Império... e já começou a desacoplar. Docemente, que a nave é grande...

A minha posição não é pois fascista, nem ultranacionalista, nem direitista sequer. A minha posição é, simplesmente, realista.

Sou português, quero continuar a sê-lo, quero que os meus filhos e netos o sejam. E não quero que nos vejamos envolvidos na disputa da herança de Carlos Magno.

Estes são, a meu ver, os reais interesses do nosso povo.

Repito pois a palavra que acima disse, palavra que o Fernando Lopes Graça melhor e antes já disse: ACORDAI !




Fontes






Etiqueta principal: Fascismo Pós-Moderno.

6 de setembro de 2020

Cidadania, Sectarismo e Bom Senso



A propósito da disciplina de Educação Para a Cidadania, ou Cidadania e Desenvolvimento, as fontes variam, e de dois alunos que, chumbados por faltas à dita disciplina, passaram, primeiro, e chumbaram, depois (por terem sido "despassados"), vai por aí uma grande polémica metendo comunicado públicos, abaixo assinados, artigos nos jornais, entrevistas nas televisões, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Constituição da República Portuguesa, leis várias, a Liberdade de Educação dos pais, ou das famílias, o Direito à Objecção de Consciência dos ditos pais, ou famílias (caso não concordem com os conteúdos das disciplinas, em geral, desta em particular), polémica, e assunto, sobre os quais pretendo também dizer umas coisinhas.

Entretanto, e dado que Isabel Stilwell já publicou no Jornal de Negócios um artigo sobre este tema, artigo que muito me agradou e com o qual concordo a quase 100%, vou começar por transcrever o dito artigo.


Eu também nunca teria ido à escola

Felizmente, os meus pais acreditavam em si próprios. No seu exemplo, e nos nossos neurónios. Acreditavam na força dos argumentos com que defendiam os seus valores, na fundamentação das suas convicções, e na nossa capacidade para aprender a esgrimir as nossas, mesmo em ambientes hostis.

Por Isabel Stilwell no Jornal de Negócios a 01 de Setembro de 2020 às 19:39

A notícia anda pelos jornais, pelas redes sociais com cartas abertas e petições, mas o essencial conta-se em poucas linhas: um pai impediu os dois filhos de 12 e 15 anos de frequentarem as aulas de Cidadania e Desenvolvimento, disciplina obrigatória. Faltas que a lei considera obrigarem o aluno a chumbar o ano. Neste caso dois, por uma série de peripécias, entre as quais o facto de a família ter recusado as tentativas da escola/agrupamento/ CPCJ/Ministério da Educação para encontrar uma solução. Foi-lhe proposto que substituíssem a frequência das aulas por trabalhos de projeto escolhendo, por exemplo, o tema da literacia financeira ou a declaração dos Direitos do Homem, mas o pai recusou, porque defende que o que está em causa é a disciplina em si, e o direito dos pais à “objeção de consciência”. Numa entrevista à revista Sábado afirma: “Não tem nada a ver com ideologia de género ou sexo. A mesma questão coloca-se em relação à solidariedade ou ao ambiente. São competências que entendemos que são competências dos pais, independentemente de estarmos a falar de ideologia de género, ambiente ou literacia financeira.”

O Ministério da Educação não teve outro remédio senão ser intransigente: sendo assim os alunos têm de chumbar, disse num despacho que uma providência cautelar entreposta pela família suspendeu. A guerra nos tribunais começou, e promete ser longa. Enquanto isto, toda a gente tem uma opinião. E eu não sou exceção.

Se o meu pai tivesse sido como este senhor, nunca me teria mandado à escola, ou pelo menos frequentar a disciplina de História, porque como historiador e inglês que era, discordava violentamente da forma como na escola portuguesa nos era ensinado o episódio do Ultimato. E tinha, sem dúvida nenhuma, recusado que eu continuasse no liceu nos anos quentes do pós-25 de Abril em que a ideologia entrava por todas as disciplinas, independentemente do nome. Católico convicto, não nos teria deixado pôr um pé numa sala de aula onde se dissesse que a “religião era o ópio do povo”. E se o meu pai fosse de uma etnia ou crença religiosa que defendesse que a escola não era para meninas, lá ficava eu em casa, porque a competência da minha mãe para os bordados era insuperável. Se alinhasse pelos criacionistas nunca teria estudado nem Ciências, nem Biologia, e caso fosse primo da Dona Branca, teria insistido em ser ele a “dar-me” literacia financeira.

Mas, felizmente, os meus pais acreditavam em si próprios. No seu exemplo, e nos nossos neurónios. Acreditavam na força dos argumentos com que defendiam os seus valores, na fundamentação das suas convicções, e na nossa capacidade para aprender a esgrimir as nossas, mesmo em ambientes hostis. Acreditavam, até, na nossa liberdade de escolher uma opinião diferente da sua. E tudo isto fora do horário escolar.

Porque sim, o que mais me confunde no histerismo de alguns pais — e nos movimentos e políticos que fazem destes casos bandeira — é a ideia que têm dos seus próprios filhos e dos adolescentes em geral, imaginando que precisam de ser defendidos ao limite (inclusivamente faltando às aulas) das “ideias perigosas”. Ideias que, num sopro, imaginam poder deitar por terra tudo aquilo que lhes ensinaram e que veem em casa, sejam sobre “sexo” ou sobre o “escândalo” de se entoar um cântico de missa na aula de música. Confunde-me que não desejem que os seus filhos, com o seu apoio, evidentemente, se treinem na escola a saber defender os seus pontos de vista. Sinceramente revelam muito pouca confiança nas suas “competências” para educar.

Porque se é verdade que o Estado não pode programar a educação de acordo com certa ideologia, filosofia ou estética, de modo a criar um pensamento único — e contra isso todos os protestos são bem-vindos — isso não significa que as ideologias, a filosofia ou a estética sejam postas fora dos conteúdos escolares. O que importa é que o sejam de uma forma aberta e plural de modo a fomentar o pensamento crítico. E o pensamento crítico só se forma se for exposto ao contraditório.

Nota: Não deixe de ler o Polígrafo sobre o “alerta” do deputado Nuno Melo, que nem acertou no nome da disciplina, chamando-a de “Sexualidade, Género e Interculturalidade”, as três palavrinhas que garantidamente inflamam os pais (às vezes com razão). [Nuno Melo: "Alunos chumbam porque não frequentam aulas de 'Sexualidade, Género e Interculturalidade'". Confirma-se?]



Tentações de Cristo
Por Botticelli, 1481-82, na Capela Sistina, no Vaticano.


Cidadania, Sectarismo e Bom Senso
católico do grego καθολικος (universal)
diabo do grego διάβολος (aquele que separa)
Mateus 4, 8-10
Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, 
mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: 
«Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» 
Respondeu-lhe Jesus: 
«Vai-te, Satanás, pois está escrito: 
“Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.”»

um
Subscrevo a quase 100% o artigo de Isabel Stilwell. E só não o subscrevo a 100% porque não subscrevo a “dentadinha” no deputado Nuno Melo.

dois 
Que a disciplina de Educação Para a Cidadania, ou Cidadania e Desenvolvimento, as fontes variam, é de índole político-ideológica é, mas a disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação, obrigatória entre 1936 e 1974, também o era, e não me consta que pais republicanos, socialistas, comunistas, tivessem invocado fosse o que fosse para evitar que os seus filhos a frequentassem.

três 
O que mais me impressiona na polémica é o sectarismo e falta de bom senso que a mesma revela. A ideia é tribalizar Portugal? Recuar aos saudosos tempos da República Afonsista, da Guerra dos Dois Irmãos, das Invasões Francesas?




Fontes e referências
  1. “Cidadania e Educação: Seus reflexos na formação.”. Instituto Vida Cidadã. Sem data de publicação. Recuperado a 05 de Setembro de 2020 às 20:07 UTC+1.
  2. “Eu também nunca teria ido à escola”. Isabel Stilwell. Jornal de Negócios. Publicado a 01 de Setembro de 2020 às 19:39.
  3. “Tentação de Cristo”. Wikipédia. Esta página foi editada pela última vez às 21h36min de 9 de abril de 2020.
  4. “católico”. Wikcionário. Esta página foi editada pela última vez às 02h25min de 30 de abril de 2017.
  5. “diabo”. Wikcionário. Esta página foi editada pela última vez às 08h09min de 30 de abril de 2020.
  6. “Bíblia Sagrada”. Difusora Bíblica. Publicada a 13 de Maio de 2001.
  7. “Cidadania”. Wikipédia. Esta página foi editada pela última vez às 13h12min de 24 de junho de 2020.
  8. “Educação para a Cidadania”. Direção-Geral da Educação (DGE). Sem data de publicação. Recuperado a 06 de Setembro de 2020 às 08:27 UTC+1.






Etiqueta principal: Política à Portuguesa.